No mundo atual a medicina alcançou avanços científicos espetaculares, e é capaz de adiar a morte de pacientes de uma maneira nunca havida. Estas conquistas consideráveis, contudo, começam a trazer certas consequências, que por sua vez estão a demandar estudos mais profundos relacionados às maneiras de viver e morrer nos dias que correm. O assunto não é inteiramente novo, pois há tempos Max Weber escreveu em ‘‘A Ciência como Vocação’’:
‘‘A ciência não tem sentido porque não responde à nossa pergunta, a única pergunta importante para nós: o que devemos fazer e como devemos viver?’ ‘‘Vejamos a medicina moderna, uma tecnologia prática que está cientificamente muito desenvolvida. A pressuposição geral da medicina é apresentada trivialmente na afirmação de que a Ciência Médica tem a tarefa de manter a vida como tal e diminuir o sofrimento na medida máxima de suas possibilidades. Não obstante, isso é problemático. Com seus meios o médico preserva a vida dos que estão mortalmente enfermos, mesmo que o paciente implore a sua libertação da vida, mesmo que seus parentes, para quem a vida do paciente é indigna e para quem o custo de manter essa vida indigna se torna insuportável, lhe assegurem a redenção do sofrimento’’. ‘‘Se a vida vale a pena ser vivida e quando - esta questão não é indagada pela medicina.
Dessa forma Weber se antecipou à discussão sobre o que se chama agora de ‘‘morte misericordiosa’’, e que envolve pacientes terminais submetidos a tratamentos dolorosos, seus familiares e, em última instância, a bioética.
A bioética, na verdade, é um vasto e complexo campo que tem necessidades de estudos e pesquisas multidisciplinares abrigando áreas aliadas à medicina como a filosofia, a psicologia, a sociologia, a antropologia, entre outras. Mas estando ainda nos seus primórdios, a bioética não expandiu os estudos e pesquisas que seriam necessários, deixando no ar muitas indagações, entre as quais as seguintes:
1- Como era a concepção de morte em certas civilizações marcantes do passado, e como nelas os indivíduos eram preparados para morrer? 2 - O que significa a morte para o homem ocidental moderno? O que significa hoje em dia morrer com dignidade em meio aos recursos prodigalizados pelos avanços consideráveis da ciência médica? 3 - Até que ponto no mundo ocidental atual as crenças religiosas conferem sentido à morte? 4 - Qual o limite da vida? Afinal, se por um lado é desumano e proibido tirar a vida, especialmente da parte dos médicos cuja missão é a de restabelecer a saúde, por outro até onde a ética médica permite preservar à custa de tremendos sofrimentos alguns sinais vitais de pacientes cuja a morte é inevitável?
Essas e muitas outras perguntas estão sem resposta num mundo onde a vida e a morte se banalizaram, mas que torna o homem perplexo diante dos avanços genéticos que já prometem a clonagem de humanos, como acaba de fazer o físico norte-americano Richard Seed, ou da macabra lei que transforma todos os brasileiros em doadores compulsórios de órgãos, a menos que constem em seus documentos que não são doadores.
Sobre a Lei dos Transplantes, o mínimo que se pode dizer que é equivocada, e sobre a mesma já se pronunciou o povo e o Conselho Federal de Medicina. O povo, dirão alguns, não tem conhecimento técnico para opinar sobre esta lei, e o efeito contrário que a mesma gerou, ou seja a diminuição de doadores, além de filas de pessoas que tentam obter a declaração de não-doadores na identidade, seriam apenas reflexos da falta de uma campanha esclarecedora. Mas será que qualquer campanha, inclusive a que já está sendo veiculada sobretudo pelas TVs através de novelas e noticiários, e que tenta persuadir através de recursos ‘‘romanceados’’ sobre a validade dos transplantes, poderá convencer alguém? Como garantirá o Ministério da Saúde, num país como o nosso, que não haverá comércio de órgãos? Como poderá convencer a população que todos os médicos são capazes de atestar com segurança a morte cerebral de um paciente, podendo então seus órgãos serem retirados com o coração batendo, o sangue circulando e outras funções vitais preservadas? Como persuadir que a ‘‘morte quente’’ já é morte, se muitos médicos vacilam em atestar a morte encefálica? E como poderá o ministro da Saúde prometer centrais de transplante competentes e bem equipadas em todo o Brasil, e listas de espera honestas de pacientes necessitados de órgãos, se nossas instituições públicas de saúde costumam abrigar a corrupção, os maus serviços, a morosidade e uma espécie de indiferença desumana em relação aos pacientes, o que não raro leva alguns à morte?
Mas, felizmente, o Conselho Federal de Medicina levanta-se contra a lei absurda, pedindo à Procuradoria Geral da República que entre no Supremo Tribunal Federal com uma ação de inconstitucionalidade contra o artigo que criou a doação presumida de órgãos. Tomara que a ação do CFM seja acatada. Seria o triunfo da medicina e da Justiça sobre a irresponsabilidade.

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