Neste 18 de junho completa 90 anos a viagem do Kasato Maru, o barco japonês que despejou no Porto de Santos 781 assombrados camponeses. Era a primeira leva de imigrantes nipônicos que aportavam no Brasil. Impeliram-nos para os cafezais. Em pouco tempo, embriagados pela volúpia de quem emigrara da escassez cruciante da terra em seu país de origem, deparam com a amplidão de um solo feraz, faminto de braços a se estender por Mato Grosso e Paraná, e alastram-se. Alastram-se e diversificam a agricultura brasileira.
Se a translação oceânica daquele grupo humano, vencendo os 20 mil quilômetros para aventurar-se a uma terra de língua, religião e costumes desconhecidos, pode ser explicável pela crua visão econômica, torna-se difícil entendê-la em suas razões históricas. Porque, percorrente os fatos que a antecederam, deparamos com um empreendimento calculadamente diplomático, quatro anos antes num encontro em Paris entre as representações dos dois países. Data de 5 de novembro de 1895 a assinatura do primeiro tratado de amizade entre Brasil e Japão.
Países antípodas, díspares na história, estranhos na genealogia, em uma época em que o Oriente e o Ocidente se repeliam, eles cingiam um contrato de amizade entre nossa infantil república americana e a jovem monarquia oriental, reinstalada depois de 1.200 anos de retaliações territoriais promovidas pelos shogunatos, perlongando uma era medieval que se arrastou até a metade do século XIX.
Qual perspectiva vislumbrariam aqueles governantes para suas nações à refração de uma aliança de todo surpreendente? De parte do Brasil, sob a presidência de Prudente de Moraes, um gesto de alargar as relações de prestígio de uma república que anelava consolidar-se. Da monarquia japonesa, secular e belicosa, torturada por terremotos e intestinais conflitos políticos, a rotina de planejar a vida a prazos dilatados como condição de sobrevivência.
A figura caricata e ameaçadora do samurai - o guerreiro brutal que desenhava a geografia do poder - reflete-se ousada nos embates da sua aguerrida diplomacia. Os japoneses eram um povo que tanto sofreu as investidas estrangeiras de Kublai Khan, como de navegantes holandeses, ingleses e portugueses, da frota ameaçadora do comodoro Mattew Perry - que afirmou: ‘‘O Oceano Pacífico é e sempre será um mar americano’’ - como também arremeteu em conquistas militares pelo continente asiático, dominando a Mandchúria, a Coréia, Formosa e o Viet Nan.
Um povo cevado no sofrimento, agredido e agressor, exigia governantes visionários. O Japão, para surdir do restrito asiático, precisava equiparar-se às mais adiantadas nações do Ocidente. Na Era Meiji (1868-1912), direcionou os rumos de seu destino global. Época em que os camponeses, liberados das amarras feudais, adquiriram a propriedade da terra e o industrialismo adotou o sistema administrativo e jurídico do Ocidente.
A terra agricultável logo se tornou exígua para tantos e a indústria e os serviços não absorviam a mão-de-obra liberada da terra. Datam de então as migrações para a América do Norte e Central, para o Peru e o Brasil.
Os ocupantes do Kasato Maru, que imaginavam enriquecer e voltar à terra-mãe, firmaram raízes no solo e na sociedade brasileiras pela assimilação dos filhos e netos. Foram os precursores de mais duas levas: em 1929, demandando o Pará, e em 1953, distribuindo-se por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Em cinco décadas, seus descendentes perfaziam 15% da população paulista, e eram responsáveis por 60% da produção agrícola daquele Estado. Sendo menos de 1% da população brasileira, seus descendentes respondem hoje por 70% da produção nacional de batata, 45% de soja, 94% de chá, 50% de ovos, mais de 90% da pimenta-do-reino brasileira.
Um estudo do IBGE revela: os brasileiros de origem asiática, em sua maioria nipônicos, ocupam hoje o topo de pirâmide de renda, educação e bem-estar. A renda mensal por origem é a seguinte: US$ 3.396 para asiáticos; US$ 1.930 para europeus; e US$ 786 para africanos.
Os nipônicos também são campeões da casa própria: em Curitiba, de cada 100, oitenta são proprietários de suas residências. Em nível de instrução, lideram: 27% têm grau universitário, seguidos pelos de origem européia.
Relegados estes números que lastram a epopéia do Kasato Maru, bastaria lembrar a pintura fascinante de Manabu Mabe e a arquitetura de Ruy Ohtake para o Brasil orgulhar-se da contribuição dos nipônicos à nacionalidade do País.

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