A epidemia invisível
Dr. RosinhaEntre tantas, no Brasil, as mulheres são vítimas de mais uma epidemia. A chamada epidemia invisível e que se alastrou pelo sistema de saúde do País. Há muito essa epidemia foi denunciada - na década de 70, pelo professor Carlos Gentile de Mello - e de lá para cá a situação só tem se agravado. Essa epidemia faz com que nosso País mantenha mais uma liderança em nível mundial, a de parto cesariano.
A cesariana, que deveria ser exceção, tornou-se regra. É realizada em cerca de 40% das mulheres brasileiras que dão à luz - chegando até a 80% em alguns hospitais - enquanto que em outros países esse percentual é muito inferior (EUA, 24,7%; Portugal, 15,8%; Suécia, 11,2%; Japão, 8 %; Áustria, 7,5%. O ato cirúrgico que deveria ser realizado para salvar a vida de um bebê (razão primordial) e ou de uma mulher, é hoje uma das causas do alto índice de mortalidade materna do Brasil e de boa parte da morbidade (infecção hospitalar).
Pesquisa feita pela médica Lynn Silver demonstra que a morte por parto cesáreo é três vezes superior à do parto normal, enquanto que o risco de infecção pós-parto (infecção puerperal) é 4,35 vezes maior no parto cesáreo.
Segundo Waldir Mesquita, presidente do CFM (Conselho federal de Medicina), a reversão do quadro atual deve ser feita com urgência e para isso é necessário combater os mitos e a falsa cultura - que o parto normal provoca dano vaginal irreversível e que altera a estrutura vagino-perineal, interferindo na atividade e satisfação sexual - e promover os benefícios do parto normal.
Uma das razões alegadas para o grande número de cesarianas no País são os valores pagos pelo SUS para o atendimento de mulheres que decidem ter parto normal. O honorário pago para um pediatra e um clínico para atender uma pessoa internada é de somente R$ 3,00 por dia; fisioterapeutas recebem R$ 1,50 por sessão; e a diária hospitalar está por volta de R$ 6,00. Como o valor pago pelo ato cirúrgico (cesárea) é superior, estimula a cirurgia em detrimento do parto normal. Enquanto esse último pode durar até um dia todo, ocupando os profissionais de uma equipe por longo tempo, a cesárea é feita em poucos minutos.
A inflação do setorial de saúde medida pela FIPE no período julho de 1994 a fevereiro de 1999 (vigência do Plano Real - plano do FHC), foi de 109%, soma-se a isso 10% referente à conversão a menor da tabela do SUS pela URV, resulta um total de 119%. Nesse período todo foi dado um reajuste de somente 25%, portanto a tabela está defasada em cerca de 94%.
Os valores pagos pelo SUS, principalmente para os atendimentos mais simples, estão extremamente defasados, porém não pode uma equipe de saúde, ou o profissional médico, atuar tendo como prioridades dias, horários - próprios ou os estabelecidos pela família do futuro recém-nato - e os honorários. O fator mais importante é a vida do bebê e da mãe.
É sabido que nesses tempos de globalização e neoliberalismo, a vida perdeu valor e cada vez aumenta mais o número de excluídos da economia e das políticas sociais, mas o médico não pode ser o instrumento dessa política. Não é necessário lembrar nenhum juramento, mas é preciso cobrar o compromisso com a razão humanitária e a defesa da vida.
Esse compromisso não é só da equipe de saúde ou do profissional médico, é de todo o Sistema de Saúde. É mais do que urgente a implantação de uma política de atendimento integral (promoção, prevenção e assistência) a saúde da mulher, da adolescência e da velhice. Além disso, devem as autoridades de saúde, depois de cumprirem seus deveres, fazerem auditorias, reeducação das equipes de saúde e punir irregularidades.
O combate à epidemia invisível passa pelo combate aos tabus e mitos, ou seja, passa pela questão cultural e educacional. Portanto, a atuação deve ser iniciada através da educação já no banco escolar. Atuando dentro da escola, com meninos e meninas, não só estaremos diminuindo no futuro o número de cesarianas, mas também o número de adolescentes grávidas, o desmame precoce e a mortalidade materna. Essa reversão passa também pelos bancos universitários, mudando a filosofia e concepção do ensino da medicina, tornando-o mais realista, social e humano e menos economicista. Nunca é demais lembrar que nestes tempos de incerteza, quando o passado foge e o porvir é indefinido à (Robert Castel) a vida é o maior valor. E a vida nos ensinou, entre muitas coisas, que normal é o parto natural.
- DR. ROSINHA é médico pediatra e sanitarista e deputado federal pelo PT-PR

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