A eleição sem voto (Rubem Azevedo Lima )
Democracia não se aprende nas ditaduras. Mas, após vinte anos de convivência com práticas ditatoriais, qualquer agente político sabe, perfeitamente, quando seus atos são antidemocráticos. O inexplicável é que muitos desses agentes, em plena democracia, atuem como se estivessem numa ditadura.
Esse é o ensinamento da reeleição - reeleição?! - do líder do PMDB na Câmara, dep. Geddel Vieira. Há dois meses, ele recolheu assinaturas de apoio a sua reeleição. À época, não havia outro peemedebista interessado na liderança partidária, o que só aconteceria em meados de janeiro, quando o dep. Ronaldo Perin se lançou também candidato àquele cargo.
Na hora da votação, a surpresa: não haveria votação. Geddel apresentou a quem presidia a votação, seu vice-líder Wagner Rossi, uma lista com as assinaturas de 73 dos 86 deputados do PMDB, favoráveis a sua recondução ao cargo. Rossi considerou Geddel eleito por aclamação.
Houve protestos, mas o vice-líder foi inflexível. Não aceitou sequer que Perin formulasse questão de ordem contra o cancelamento da eleição e a recondução do líder pela simples apresentação de uma lista de apoio.
Para evitar pressões contra quem vota, o Brasil adotou, na revolução de 1930, o voto secreto. Esse princípio, recusado agora pelo PMDB, também o foi na reunião do conselho político do partido, por ministros e governadores, que ali exigiram o voto a descoberto, para aprovar o apoio partidário à recandidatura FHC. O líder reeleito é defensor dessa tese, tanto quanto seu oponente, mas foi Perin quem sentiu o peso da máquina reeleitoral do governo.
Antes do episódio Geddel, o líder Inocêncio de Oliveira, do PFL, foi confirmado no posto graças a uma lista de apoio. Além do PT e outros partidos oposicionistas, só um partido governista, o PPB de Maluf, adotou a regra democrática do voto secreto. Mas tentara eliminar esse incômodo, o que não conseguiu porque o dep. Jofran Frejat prostestou e derrubou a idéia da democracia partidária sem votação.
No regime militar, as votações para escolha de líderes governistas eram simbólicas. Os parlamentares da extinta Arena - o partido oficial - se limitavam a consagrar as indicações palacianas, sem protestos. As urnas em que depositavam seus votos eram objetos decorativos. O PMDB, então MDB - que agora votou, pela primeira vez em sua história, numa folha de papel - fazia oposição ao regime e se opunha às violências contra o exercício do voto livre. O partido tinha, então, entre seus admiradores, o atual presidente, à época jovem professor de Sociologia, Fernando Henrique Cardoso. Quem esperava, no governo FHC, o aperfeiçoamento ético da política brasileira e o repúdio presidencial a qualquer involução democrática tem, hoje, muitos motivos para sentir-se frustrado. O admirador das anticandidaturas peemedebistas não quer nem ouvir falar em candidatura própria do PMDB e silencia diante da desmoralização do voto, promovida por seus aliados no Congresso.





