A eleição de hoje poderia ser considerada a festa da democracia. Não é bem assim. Estragaram a festa cívica. É isto mesmo, com o verbo no sujeito indeterminado porque são muitos a conspirar contra nossa autoestima, a começar pelos poderes constituídos - combalidos, em frangalhos. Exemplo recente: não foram capazes de emplacar o Ficha Limpa nesta eleição. Um clamor popular de milhões de assinaturas é preterido em poucas horas. Outra instituição, o Legislativo, não foi capaz de estancar uma enxurrada de corrupção. Neste caso, fica mais latente a identidade cúmplice.
  É no cenário desta pobre festa rica que vamos às urnas. Já foi pior num passado recente, quando até o voto nos foi negado pelo golpe de 64.
  Evoluímos? O eleitor poderia escolher logo mais - entre um grupo de homens de bem e devidamente preparados - o que julgasse ser o melhor. No entanto, ele vai escolher nomes que lhe indicaram; que os partidos - no puro fisiologismo - disponibilizaram. E cuja indicação, com exceções, resultou de conchavos e negociatas. Não emergiram de uma trajetória de serviços prestados à Pátria, à comunidade. Apenas pautaram suas carreiras da forma que não fosse, necessariamente, a mais ereta, a mais correta. Sua credencial reúne ‘‘atributos’’ com vínculos apenas no populismo.
  Antecede a eleição de hoje uma campanha que não debateu propostas, apenas revelou a inapetência política de uma oposição sonolenta. Campanha em que prevaleceu a teatralidade dos gestos de um homem e seus discursos sofismáticos. Uma campanha cujo Presidente da República - que se fez o personagem mais importante - não tolerou as críticas de imprensa sem partir para o insulto e expondo à execração jornais ou revistas.
  Mas é dia de eleição e, convenhamos, todos, que ela tem uma finalidade - profundamente meritória - a de oferecer a oportunidade para o brasileiro exercitar a busca da democracia plena, ainda que se nos pareça distante. E que esta sonhada democracia abrigue a independência das instituições diante do poder central, para que não tenham que se vergar perante ele.
  Então, todos às urnas, hoje, depositando uma aposta nesse futuro.

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