A elegância dos sem-salário
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de agosto de 1997
Fernando José Dias da Silva 
Já existe a estética do desempregado. Dorinha Kalil, Constanza Pascolato e Fernando de Barros, que ditam o que vai ser moda, vão ser convocados para explicar como o desempregado deve se comportar. Poderia ser uma coisa no estilo do Socialismo para Milionários, de Bernard Shaw, que fala como deve proceder o abonado numa sociedade igualitária. Esse triunvirato da moda poderia fazer um trabalho conjunto que, para ser atual, poderia bem levar o título Under The Bridge, But Very Fashion.
áManual utilíssimo para os novos pés-rapados. Afinal de contas ninguém sabe como se comportar numa fila de seguro desemprego. Mais difícil então é manusear uma lata de lixo com elegância, sem se sujar e sem parecer um pobretão antigo. O sujeito pode ser desempregado, estar no maior desvio, mas não pode perder a dignidade.
A qualidade de Under the Bridge, But Very Fashion dependeria do engenho e arte de seus autores, mas mercado para ser um sucesso já existe. Os economistas do governo, que são oficiais, e os economistas oficiosos, que puxam o saco do governo, dizem que tudo vai bem, que o céu é de brigadeiro e o mar é de almirante. Só que São Paulo tem taxa de 16,17 por cento de desemprego e a maior preocupação das pessoas revelada em qualquer pesquisa é também o desemprego.
Talvez esse seja o aspecto mais perverso da globalização - criar uma massa jamais vista de gente sem emprego, quando o conceito de trabalho talvez seja a principal mola da sociedade. Isto é, o trabalho continua existindo, o que está desaparecendo é o emprego. E aí surgem figuras de boa fé - e outras nem tanto - dizendo que nós precisamos passar para a sociedade do lazer, que as pessoas precisam dedicar mais tempo a cuidar delas mesmas. Essa nem Maria Antonieta e as suas brioches seriam capaz. Se dedicar ao lazer como? Sem salário as pessoas comuns (tirando os eleitos) não sobrevivem, ficam à margem e a perspectiva vista debaixo da ponte torna-se uma realidade.
Viviane Forrester foi malhadíssima pelos membros da academia. O seu Horror Econômico foi visto com desdém pelos bem pensantes mas vendeu, na França, uma barbaridade. É que ela pega pesado no tema e chega mais perto daqueles que estão apavorados com o desemprego. Forrester diz que o mercado de trabalho se tornou imaginário(...). Para além da exploração dos homens, havia algo pior: a ausência de qualquer exploração(...)
No nosso quintal as coisas acontecem com uma rapidez inacreditável. E nós queimamos etapas: passamos da barbárie para a decadência sem chegar ao apogeu. Vamos, nesse caso, cumprir a risca a cartilha adotada pelos outros para situações como essas. Vamos tocar na rua milhões de pessoas sem emprego. E eles que se virem porque os chamados colchões sociais são coisas para sociedades ricas, nós não podemos nos dar a esse luxo.
Voltando a Viviane Forrester: Se a ferocidade social sempre existiu, ela tinha limites imperiosos porque o trabalho oriundo das vidas humanas era indispensável para aqueles que detinham o poder. Ele não é mais, pelo contrário, tornou-se incômodo. E aqueles limites esboroam-se. Será que se entende o que isso significa? Jamais o conjunto dos seres humanos foi tão ameaçado na sua sobrevivência.


