Ver, ouvir, falar, andar. Qualquer pessoa que não tenha um desses atributos é nomeada de deficiente físico. Incorporamos a idéia de que ser deficiente e ser incapaz de trabalhar e produzir. Aliás, criamos uma barreira em relação a essa questão. E passamos a discriminar, pois tudo o que foge ao padrão da loira fenomenal ou do moreno alto agride nossos olhos.
Como resultado disso, temos hoje uma sociedade que, com raras exceções, deu as costas aos deficientes. Só se lembra deles quem possui alguém com algum tipo de problema na família ou entre amigos; quando é inevitável ajudar um deficiente a atravessar uma rua; quando se faz parte de movimentos ou entidades que corajosamente buscam enfrentar a questão; ou quando se sabe que atletas brasileiros conquistaram 22 medalhas nas Paraolimpíadas de Sydney.
Como não é possível mudar atitudes sem algum tipo de estímulo, o Secovi-SP decidiu iniciar ampla mobilização com vistas à integração do deficiente físico no mercado de trabalho e, consequentemente, na sociedade. Com o mote ‘‘A Eficiência do Deficiente Físico’’, a meta é iniciar um processo de conscientização a partir de um importante nicho social: os condomínios.
Além das próprias empresas de administração, os condomínios oferecem amplas oportunidades para a absorção desse tipo de mão-de-obra. Um condomínio de médio padrão possui cerca de seis funcionários; a carga horária por dia é de 8 horas por funcionário, sendo 50% das atividades correspondentes à carga horária são realizadas por pessoas sentadas.
Assim sendo, fica evidente que só na atividade de porteiro há um campo considerável. Estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) mostra que existem, no Brasil, pelo menos 9 milhões de deficientes em idade economicamente ativa. Ao todo, são 16 milhões de cidadãos, sendo 7 milhões deles aptos a realizar algum tipo de atividade.
Mas o País só oferece oportunidade de emprego a 11% desse universo (índice muito menor que os 34% registrados na Europa e nos EUA). E mais: a mesma pesquisa revela aumentar o mercado de trabalho para o deficiente também é importante para reduzir o déficit público. O Ministério da Previdência Social gasta cerca de R$ 136 milhões com 900 mil portadores de necessidades especiais. Assim, sua inclusão também seria útil à economia brasileira. Só na área condominial poderiam ser criados 11 mil novos postos de trabalho.
Para o lançamento da campanha – no 3º Encontro Nacional de Administradores de Condomínios (Enacon), em 4 e 5 de dezembro, em São Paulo – oficializamos parceria com o governo do Estado de São Paulo, via convênio com a Estação Especial Lapa, local que cuidará do recrutamento, seleção e treinamento de deficientes. Além disso, teremos na Internet um site que fará a interface entre os condomínios que procuram mão-de-obra e os empregados que se oferecem.
Sabemos que esse movimento tem tudo para crescer e se transformar na bandeira dos Secovis de todo o País. Sabemos, ainda, que as dificuldades serão muitas. Há que se vencer o problema de locomoção (os transportes públicos deixam muito a desejar) e de acessibilidade nos próprios condomínios, muitos deles sem qualquer adaptação para receber cadeirantes.
É nisso que o fato de a campanha ser lançada pelo Secovi-SP tem um valor adicional. O sindicato é o único que pode provocar o nascimento de uma nova mentalidade no próprio meio empresarial do mercado imobiliário, de forma que novos projetos sejam concebidos dentro dos princípios máximos da acessibilidade e que aqueles já concluídos sejam adaptados.
Steven Dubner, fundador da Associação Desportiva para Deficientes (ADD), declarou que conquistar medalhas em Sydney foi moleza em face das dificuldades enfrentadas (da calçada em péssimas condições às escadarias de um prédio ou uma igreja). Segundo ele, o Brasil é uma ‘‘fábrica de fazer deficientes’’: a cada mês 10 mil pessoas se tornam deficientes, sendo que 80% dos casos são consequência de acidentes de carro ou armas de fogo. Nos Estados Unidos, são 10 mil pessoas por ano.
Temos certeza de que a campanha, cujo alcance será proporcional ao apoio da imprensa, ajudará a mudar essas circunstâncias, e sem assistencialismos. Afinal, o deficiente não quer caridade; quer oportunidade.
- BENJAMIM SOUZA DA CUNHA é vice-presidente do Secovi-SP

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