A educação no Brasil - Ricardo Prochet
A educação no Brasil
Ricardo ProchetOs séculos XV, XVI e XVII assistem a movimentos populacionais muito interessantes na Europa Ocidental. De um lado, partem as caravanas expedicionárias marítimas com idéias exploratórias e de retorno rápido com riquezas, não necessariamente em espécie, mas também, pelo encontro de novos mercados. De outro, partem as elites culturais, políticas e religiosas, com idéia de fixação nos novos territórios e sem intenções de retorno à terra natal.
Parece-nos óbvio que movimentos com características culturais tão diferentes trouxessem ao longo do tempo, também, consequências igualmente díspares, em todos os campos. E, desses, foi, talvez, a educação o que mais refletiu essas diferenças, pois uma coisa é ocupar território como entreposto comercial ou filão extrativista e outra é abrigar pessoas culturalmente exigentes e refinadas que se fizeram acompanhar em cada grupo ocupacional, de ao menos um professor, como no caso da colonização norte-americana. Sem dúvida alguma, a marca mais profunda dessas tamanhas diferenças, ficou gravada nos campos da educação e do saber.
A forma de colonização de nosso País, através de capitanias hereditárias, veio a aprofundar ainda mais essas marcas, pois acabou por criar duas classes sociais bem definidas, uma rica, totalmente voltada para modelos exteriores, preocupada em reproduzir estilos de vida europeus e outro, extremamente oposto, preocupada somente com sua própria subsistência. A educação no Brasil não tardou a responder por isso - ensino para os ricos e trabalho para os demais.
Ainda em 1592, um jesuíta dirige uma carta ao rei de Portugal, solicitando autorização para fundar aqui uma universidade. Como a resposta não foi direta nem imediata, tivemos nossa primeira universidade em 1920. Entretanto, os quatro séculos que separaram o pedido de sua satisfação não foram um vazio pedagógico no que se refere a educação.
Os jesuítas representaram por muito tempo a única presença pedagógica eficaz no panorama brasileiro da época, mas que, no entanto, vieram a ser expulsos pela reforma progressista do Marquês de Pombal. Deixando de lado julgamentos precoces, cabe aqui uma reflexão honesta sobre a extinção de um mal, que acabou por criar outro talvez ainda maior, pelo vácuo que acabou por deixar em nosso processo educacional.
Da vinda de D. João VI até nossos dias, a cópia de modelos educacionais é ora europeus, ora norte-americanos e agora, com a instituição do Provão do MEC, de um modelo eminentemente cubano, que de forma alguma pode se caracterizar como indício de real modernização, uma vez que naquele país ainda perduram as teorias druckernianas da metade do corrente século.
Entretanto, como nos mostra a história da educação, a renovação tarda a atingir o ensino em sua totalidade e, quando o faz, não atinge integral nem essencialmente, mas se revela na fundação ou reforma de uma outra escola, em uma lei parcial etc. Quase nunca atinge sequer uma universidade inteira. Propugna-se um novo processo didático, uma nova arquitetura administrativa, raramente integrados, e nos surpreendemos ingenuamente quando os maus resultados aparecem.
Atualmente, em linhas gerais, a educação brasileira tem tentado em vão responder às solicitações que a época contemporânea faz em todo o mundo - atender a maior número de pessoas, transmitir conteúdo mais denso e funcional, procurar acompanhar a mudança e comunicar resultados. De outro lado, ainda, visa a preparar de forma mais efetiva o homem para desenvolver suas potencialidades em um mundo em mudança e em crise e contribuir de forma eficaz para a solução dessas crises.
Não podemos deixar de mencionar, apesar de todos os erros cometidos desde a colonização, que o ensino brasileiro possui também certa originalidade. Essas são, no entanto, de difícil análise por possuírem características próprias. No entanto, podemos destacar algumas mais marcantes, como a demográfica, que gera um aumento da demanda de ensino. Com esse aumento vem a legítima preocupação ou suspeita de que o aumento em quantidade não acompanha o progresso em qualidade. Outra questão em debate é a do caráter elitista que, por si só, seria uma discussão inesgotável.
As questões de nível do ensino e do preparo de professores dividiram com as anteriores o espaço no pensamento, no debate e na praxis pedagógica.
Qualquer apreciação sobre os níveis de eficiência do sistema de educação só poderão ter um mínimo de objetividade se apoiados por avaliações locais e voltadas para a missão de cada curso, que são diferentes em cada universidade ou faculdade, e nunca da forma como propõe o sistema cubano de avaliação, adotado pelo MEC, que desconsidera as regionalidades e a questão geográfica, por possuir a ilha uma área semelhante a de nossos menores Estados.
Pior ainda, a adoção desse sistema pressupõe o fechamento de cursos sem qualquer sondagem prévia de seu caráter necessário ou supérfluo. As escolas de 2º grau e as universidades não conheciam e continuarão a desconhecer, senão de forma intuitiva, a qualidade dos profissionais que estão habilitando, enquanto não criarmos um sistema genuinamente verde e amarelo de avaliação institucional.
Até lá, é razoável que nos preparemos para ver um sem-fim de universidades sendo fechadas anualmente, em função de falhas que perduram desde a colonização de nosso País e pelas quais as escolas são as menos culpadas.
- RICARDO PROCHET é coordenador do curso de Administração da Universidade Norte do Paraná (Unopar) em Londrina





