A educação crítica permite o exercício de novos cenários, na medida em que dialoga com o futuro, constrói ideias que poderão se consolidar no futuro, dependendo em grande medida do que fizermos hoje. Constitui-se um pensamento crítico a capacidade de imaginar, nos exercícios individuais e coletivos, para forjar e imaginar cenários futuros.

A educação crítica, continuada intensa e transformadora torna-se urgente e necessária. Um informe realizado pela Unesco, de Jacques Delors (1996), fixava os pilares para uma educação para o século XXI: "Aprende a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver juntos". Estas seriam as bases centrais e transformadoras em processos de aprendizagens necessárias a serem trabalhadas em todas as instâncias do universo educativo. Isto para propiciar condições de desenvolver a capacidade crítica, pensamento que orienta os traçados das transformações necessárias.

A educação, sob este olhar, permite regular "nosso GPS" na rota da cidadania plena e emancipatória. Pois é o que podemos fazer para o momento, calibrar os aparelhos reguladores a partir de um pensar universalizado e particularizado dos formatos no qual somente no campo da utopia serão construídos definitivamente. Este caminho que vá de encontro à utopia, sempre acreditando nas possibilidades transformadoras, do homem e do mundo e com um olhar crítico refazer o mundo.
A imaginação da mente humana, diferentemente que nos colocam, pode dedicar seu tempo e esforços para pensar um futuro melhor ao que está posto. Pode se inspirar na filosofia ou na ciência, nas religiões ou em suas convicções. Se utilizar a razão instrumental, permitir com que extravase a razão sensível. Esta abordagem dará pistas teóricas e metodológicas estabelecer um diálogo com o futuro.

Propomos este diálogo fundado na imaginação que resgata o bem viver das populações autóctones, visto que estas não foram contaminadas pelo espírito individualista, competitivo, tirânico acumulativo. Como voz que ressoa, imaginamos o amanhã pleno de vida, onde os homens reconhecem definitivamente que a espécie humana é responsável por determinar a forma de vida em todas as suas dimensões no planeta. Toda a forma de vida depende desse reconhecimento e dessa decisão, isso não é antropocentrismo, é a nossa condição humana inteligente e criativa que nos coloca como autores e responsáveis pela vida. Hoje a educação não estabelece mais uma determinação absoluta de valores. Os valores são inúmeros, são indeterminados, aparecem como metamorfoses e não como dogmas definidos como no período feudal.

Trata-se de exercitar intelectualmente dimensões antecipadoras. Desvendar as possibilidades futuras, abrindo caminhos para luz que vem do horizonte e que, pelas brechas, começa a iluminar trilhas ainda não percorridas. Este modelo de educação não pode impossibilitar outra forma, que não seja, o encontro de um lugar no mundo para todo o mundo. Trata-se de ocupar os territórios de possibilidades sem utilizar a lógica perversa modular do sistema.

A educação crítica tem como tarefa formar sujeitos, conscientes, sensibilizados, profundos em pensar e fazer. Abrir caminhos, até então cerrados, para as experiências de vida prudentes, equilibradas, solidárias, colaborativas. Pensar o fazer, antes do fazer e depois do fazer, por isso que o conhecer torna-se algo fundamental, ponto de partida para qualquer transformação social. Trata-se de propor e arquitetar um conhecimento pertinente que se desenvolve na contramão da linearidade, da fragmentação, da alienação. Pois entendo que há uma indissociabilidade entre o conhecimento e a produção material da sociedade implicando numa alteridade e empatia constante elaborada no cotidiano. Isso implica em possibilitar que se estabeleça o pensar qualitativo com o fazer qualitativo, e enfrentar as incertezas complexas que este tempo nos coloca.

PAULO BASSANI é sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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