A economia da salvação
As pessoas não podem ter ''nem superávits nem déficits'' na vida. Este foi o tom do sermão do padre polonês Miroslaw Matyja ontem, durante missa na capela jesuíta do Centro Cultural de Brasília, num domingo em que a economia era o tema do evangelho. Não por coincidência talvez por puro acaso um dos devotos a ouvir o sermão foi o diretor-assistente do Departamento do Hemisfério Ocidental do Fundo Monetário Internacional (FMI), Lorenzo Perez, que participa no Brasil da missão que faz a primeira revisão do acordo com o País.
''Existe outra economia além da do mercado. Existe a economia da salvação, que é para nós muito mais importante'', pregou o padre, que depois discorreu sobre a necessidade da prudência para manter a casa unida, mesmo nos momentos econômicos mais difíceis. ''Quem não percebe o pobre que dorme debaixo do viaduto, quem não percebe o que acontece no mundo, a injustiça, a desigualdade, enterrou o seu talento em algum lugar porque está com medo de mudar e, com medo, não se muda nada'', disse o jesuíta.
O fato do padre integrar a ala progressista da Igreja Católica não diminui a importância do seu sermão. Fala-se em mudança, a partir da reviravolta que o País experimenta após o segundo turno da eleição presidencial. Ao colocar na Presidência da República um político de histórico diferente dos demais que disputaram o cargo, o eleitor brasileiro disse sim à transformação. Com seu voto, referendou a proposta de quem está disposto a mudar, sobretudo implantando uma política econômica e social que torne o povo parte do Brasil. Foi um basta à prática de aumentar a massa dos excluídos de tudo: do direito à dignidade, do direito a um bom emprego, do direito à moradia, do direito de ser cidadão.
Estes e os demais segmentos da população que fazem o Brasil andar e carreguem em seus ombros o peso dos equívocos que se cometem nas esferas administrativas, o que transforma a economia em pesadelo, a política social em salvaguarda do paternalismo e a política partidária em quadro de humorístico, já disseram sim à mudança. O sermão do jesuíta, com certeza, é para os outros. Para aquela minoria que se encastela e vestido de tecnocrata decide de acordo com a sua visão do mundo. E esta visão, infelizmente, não ultrapassa a tela de um computador. Talvez jamais atinja a linha do horizonte, ainda possível de se enxergar através da janela de um órgão público ou da sofisticada divisória de um organismo como o FMI, que trabalha dólares e impede que se veja além dos números.
O evangelho pede a valorização do talento, para que se enxergue. E que assim se promovam as mudanças que o Brasil precisa.





