A ''duplafala'' do governo
A duplafala do governo
Miguel Ignatios
O governo dizer uma coisa e fazer outra já não é novidade. Tal prática, infelizmente, incorporou-se aos chamados recursos, discutíveis e nem sempre éticos, da governabilidade. Em alguns casos, essa artimanha é usada, no entender de seus defensores, para evitar um mal maior. Na verdade, tal comportamento traduz a atualização que os poderosos vêm fazendo, ao longo dos tempos, e ao sabor de seus interesses, dos ensinamentos de Maquiavel, no clássico O Príncipe, um dos manuais da governabilidade moderna.
Na época da Renascença, quando foi escrito O Príncipe, os poderosos viviam em guerras e disputas territoriais intermináveis. Por tal motivo, falar uma coisa e fazer outra era prática comum, tolerada e até mesmo elogiada pelos governados, que viam nessa atitude uma forma de os governantes enganarem seus inimigos. Já naquela época, mentir e trapacear faziam parte do cotidiano da política. A ética era atropelada ou simplesmente ignorada pelas razões de Estado.
O que nos espanta, hoje em dia, é a perturbadora atualidade de tais práticas, num contexto totalmente diverso. Como se governantes, empresariado, sociedade civil, classe média e trabalhadores fossem inimigos cordiais, vivendo num mesmo País e sob leis comuns a todos.
Exemplos são frequentes na mídia. Num dia, o governo diz, por intermédio de seus habituais porta-vozes, que está empenhado em diminuir o custo Brasil para incentivar as exportações. No outro, eleva a carga tributária e reajusta preços da energia e dos combustíveis. Privatiza rodovias importantes para escoar a produção, mas permite aumentos abusivos dos pedágios. Diz que a polícia está treinada e equipada para combater a criminalidade, mas no momento de agir é aquele vexame.
Todas essas coisas nos fazem refletir sobre o novopensar (newthink) e a duplafala (doublespeak) dos tempos modernos, profetizada por George Orwell, o mesmo do Big Brother, no também clássico 1984. Com sua habitual lucidez, o ex-deputado federal e atual membro da Academia Brasileira de Letras, Roberto Campos, nota, em artigo recente escrito para o Digesto Econômico, intitulado As armadilhas da semântica, que, para felicidade do gênero humano, não se realizaram as sombrias previsões orwellianas. Apesar disso, conclui Campos, Orwell acertou em cheio quanto ao uso da duplafala.
Talvez a grande contribuição do autor de 1984 tenha sido justamente a de atualizar, por meio da duplafala (o governante diz uma coisa, mas faz o contrário) e do novopensar (o encadeamento lógico do discurso decorrente da duplafala), os ensinamentos de Maquiavel.
Mas voltemos ao cotidiano de nossos governantes. Desde o final do ano passado, a prioridade número um, definida pelos estrategistas do Planalto e apoiada pelos partidos aliados, ao menos no discurso, tem sido uma só: diminuir a carga tributária que esmaga o setor produtivo. Na prática, a ação governamental contenta-se em arrecadar cada vez mais, exibindo como troféus ao FMI e aos investidores estrangeiros os superávits fiscais acumulados.
A verdade é que desde a criação da CPMF o governo se acomodou na doce ilusão de sanear as contas públicas por meio do excesso de arrecadação. Às custas do setor produtivo, da classe média assalariada e dos trabalhadores. O preço pago até agora tem sido alto. Esse modelo de ajuste tecnocrático é insustentável no médio prazo. Investidores estrangeiros e até mesmo o FMI já se deram conta disso.
Tenho convicção de que é chegada a hora de revê-lo. É preciso trocar a duplafala pela transparência ética. O empresariado, a classe média, os trabalhadores e a sociedade civil não são definitivamente inimigos do governo. Portanto, não podem mais ser vistos dessa forma pelos quixotescos tecnocratas orwellianos do Planalto.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)





