A droga sociopolítica

Fahed Daher
Na maior parte das campanhas contra drogas encontramos o lugar-comum: ‘‘Diálogo e esclarecimento’’. Basta? Se bastasse, será que já não teríamos diminuído o número de drogados? Em 1996, o livro ‘‘Os 7 Pecados da Juventude sem Amor’’, de Alceu Amoroso Lima, com depoimentos de juízes, pastores, delegados, médicos, psicólogos, padres, sociólogos etc., evidenciava que a dependência e a delinquência são produtos de criação de famílias sem amor.
Há tanta discussão e citação de amor, vocábulo virtual, sentimento confuso e ambíguo na linguagem isolada de cada um e que até agora não recebeu definição exata.
Não! Não nos parece que a droga e a delinquência estão somente na esfera dos processos educacionais familiares e nem das campanhas públicas de esclarecimento sobre drogas, que apenas reforçam a convicção dos que não têm tendências para a dependência... e despertam a curiosidade de tantos.
A esfera educacional, que completará a familiar, é a esfera pública da área da segurança, não somente segurança policial, mas segurança dos rumos de sociedade disciplinada, onde os homens públicos devem ser realmente símbolos da dignidade, do trabalho e da condução segura dos destinos da comunidade; e não exemplo de tirania e corrupção que roubam das pessoas, em especial dos adolescentes, a fé na comunidade, o orgulho nacional, a esperança de sucesso nos empreendimentos. Perda da fé nas lideranças públicas no destino que as aguarda.
A esfera educacional solidificará a estrutura familiar e com ela o processo cultural, pela presença da justiça que quando não exercida a contento rouba de cada um a fé no direito, no dever e na disciplina, a fé na confiança de estar sendo protegido pela conduta correta.
Os templos e as famílias: a esfera educacional dos templos, onde a figura de Deus deve ser mostrada na elevação espiritual e humana de cada mentor de cada seita religiosa sem permitir que se quebre esta fé e cada um se sinta preso à grande estrutura universal da poderosa e justa divindade, de onde viemos para onde deveremos ir, na consciência de que a prática do bem é a finalidade da vida demonstrada na humildade dos religiosos que saberão manter a grandiosidade do espírito fraterno, como a grandiosidade de Cristo, que olhou o aperfeiçoamento de cada um e não a vitória da Palestina. Mentores que quando assim não praticam, a fazem a perda da fé na religião, criando o individualismo e desinteresse na solidariedade.
Os meios de comunicação e a família. Aí também vamos encontrar a dignidade nos meios de comunicação que não podem ser simplesmente oferecedores de recreações e emoções indisciplinadas, à busca de grandes faturamentos e que criam frustrações em cada um que não consegue a capacidade de consumo e status ofertados por imagens sedutoras e fazem a perda de fé em si próprios e mesmo a perda da auto-estima por se achar incompetentes para o sucesso, quando tudo é ofertado em forma de conquistas... juntamente com cenas elucidativas de comportamento e técnicas criminosas.
O uso, o consumo e a dependência de drogas não é um problema individual, nem familiar, mas um problema de todos, social e político da mais profunda gravidade. Menos mais um problema policial do que um problema de estrutura sociopolítica.
O problema sociopolítico é menos um problema de leis escritas, mas de cultura e de justiça, que precisa receber mais atenção do que a do consumismo e a busca do lucro indiscriminado vigorante especialmente entre os que detêm grandes capitais e exploram o mercado de finanças, aceitando a tese de Maquiavel que nos afirma: ‘‘... Porque o ser humano nunca se sente seguro do que tem, a não ser que adquira cada vez mais.’’
Não podemos esquecer a droga do erotismo, quando o sexo é levado ao comportamento irresponsável e apenas com a recomendação do uso da camisinha, para o grande lucro dos fabricantes - ‘‘Use camisinha e ande com quem quiser’’.
No problema das dependências, não basta o diálogo e o esclarecimento, que não podem ser abandonados mas devem ser ativados com a presença de todos os que são ou se dizem ou se jactam responsáveis.
- FAHED DAHER é médico em Apucarana e membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores

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