Exemplos de publicidade construtiva, antropogênica, eu os vi, anos atrás, primeiro num outdoor, em Curitiba, cuja imagem mostrava um enorme desenho de coração com a legenda: ‘‘Mãe, entre sem bater’’. Depois, num adesivo colado no vidro traseiro de um automóvel, com a frase: ‘‘Adote seu filho antes que um traficante o faça’’.
Frases publicitárias, de efeito, que podem ser equiparadas à clássica ‘‘agite antes de usar’’, bem demonstram o quanto é sutil, estética e eficaz essa linguagem de comunicação social, e o quanto pode ser útil se colocada a serviço da humanidade. Algo assim invadindo o eu interior do público-alvo, fazendo-lhe repercussão no cérebro, chamando-o à consciência dos seus atos, notadamente nessa relação paterno-materno-filial.
Com esta escritura, encerro, por ora, uma abordagem em três colunas a respeito da disseminação das drogas em nossa sociedade. Coincidentemente, justo no momento da divulgação de recente pesquisa realizada com cerca de 15 mil estudantes nas capitais brasileiras. Aumentou o percentual de usuários de drogas ilícitas, e a maior incidência de consumo é a bebida alcoólica, que tem seu tráfico legalizado (e patrocinando os esportes mais populares no País).
A dependência física ou psíquica de drogas, não importa se são drogas lícitas ou ilícitas, traz sempre o mesmo resultado: uma significativa diminuição no capital vital do ser humano. Isso para dizer o mínimo, para não enveredar pelas tragédias que atingem as pessoas em sua saúde, seu desempenho profissional, seu estado emocional etc. E a razão de eu me meter nesse assunto - que, a rigor, dizem alguns, é uma questão de escolha livre -, prende-se à análise simples de custo-benefício, social, entre indústrias que geram empregos (as legalizadas, recolhimento impostos) e o desmonte da criatividade e da qualidade de vida das pessoas. Qual é o custo social de um cidadão que, tabagista, tem um derrame cerebral, tornando-se hemiplégico aos 45 anos? Ou de um outro que, alcoolista, desencarna de cirrose hepática aos 37? Ou ainda de um outro, adolescente de 15 anos, que larga da escola e passa a aterrorizar a família para poder saldar seu débito com o traficante e sustentar o vício em maconha ou cocaína? No que se refere ao tráfico ilegal, clandestino, é muito difícil afirmar - a riqueza que faz circular reverte apenas em recolhimento de tributos indiretos. Mas o tráfico legalizado de cigarros e bebidas alcoólicas, por exemplo, fiscalizado e contabilizado, permite interessantes estudos e conclusões. De um modo geral, não compensa nada, nada. O custo de um tratamento de enfisema pulmonar causado pelo fumo continua sendo muito mais oneroso do que a receita tributária gerada pela indústria fumageira. São necessários muitos fumantes (enfisematosos potenciais) para pagar o tratamento hospitalar de um único doente enfisematoso. Contraditório?
Por pouco que se tenha falado sobre a dependência de drogas, obviamente já se falou o suficiente para que qualquer um saiba que seu uso não está ligado à defesa da vida. Qualquer adolescente, ou adulto, sabe que cigarro, álcool, maconha, cocaína, haxixe, heroína, crack etc promove destruição celular. O que há são espertinhos que ficam discutindo a intensidade do malefício em teses comparativas (tipo dizer que cigarro de maconha faz menos mal que o cigarro comum). Seja lá como for, interessa é que o ser humano adote o ser humano, procurando agir para evitar situações que causam demanda pelas drogas. Não se pode amar a vida e, ao mesmo tempo, destruí-la. Por que as pessoas procuram o estimulante, o anestésico, a pseudopotencialização dos sentidos? Por que adolescentes resolvem experimentar drogas? Curiosidade? Fuga? Predileção pelo perigo? Transtornos psíquicos? (Transtornos psíquicos levam ao consumo de droga ou o consumo de droga leva aos transtornos psíquicos?)
Estatisticamente, tudo indica que as pessoas formadas em ambiente onde se valoriza muito a vida, a alegria de viver, a dignidade do trabalho, são menos propensas a procurar alternativas entorpecentes. E nesse aspecto, a exemplificação é uma grande ferramenta de prevenção e manutenção. Porque ninguém ensina aquilo que não vive, aquilo que não faz. A condescendência dos adultos em relação a drogas legalizadas, tanto quanto o diálogo ausente, pode abrir caminho para alguém, sem prontidão, sem resistência, tornar-se dependente de drogas ilegais.
Daí, de repente, perdeu-se mais um cidadão (ex-futuro poeta, um ex-futuro professor, um ex-futuro médico, um ex-futuro cidadão, um ex-futuro amigo...)

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