A droga é a demanda - II
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de dezembro de 1997
Joel Samways Neto 
No que diz respeito às drogas, a mentalidade policial brasileira, tanto quanto a mentalidade social, é de repressão. E não adianta teimar. Isso é algo construído historicamente. Não adianta virem os arautos da descriminação do uso, ou os da estatização da produção e distribuição, citar a liberdade da Holanda, onde o poder público controla o produto e o consumo. (Aliás, essa conversa fiada de mencionar a política holandesa dos entorpecentes só faz discurso quando dita aqui, no Brasil. Quem visita Amsterdã afirma que ver os jovens deitados, caídos, nas calçadas e nas praças, fumando ou injetando, é absolutamente constrangedor e deprimente.)
Acontece que o narcotráfico está em segundo lugar no ranking dos empreendimentos mais lucrativos do mundo. Perde apenas para a indústria armamentista. Isso significa que, embora uma economia informal, subterrânea, o narcotráfico consegue volumosas somas de dinheiro para investir em sofisticada tecnologia na melhoria dos seus negócios. Ou seja, o crime organizado está cada vez mais organizado. Enquanto isso, o Estado...
Certa vez, ouvi um policial federal dizer que não precisava reclamar mais do seu salário, e que agora o problema era o equipamento. Disse que não havia viatura suficiente para fugir dos traficantes. Fugir? Pois é, há ocasiões em que o contingente policial é menor do que o dos bandidos. E os bandidos usam armas militares, fuzis russos, mira à laser (chegaram a encontrar mísseis antiaéreos nas favelas do Rio de Janeiro), e automóveis importados último tipo.
Mesmo assim, em que pese a descomunal desproporção de recursos de investimento, a mentalidade continua sendo pela repressão, e os bravos policiais continuam seu trabalho. Interceptam e destroem uma tonelada de droga num porto ou num aeroporto clandestino - ao mesmo tempo em que na Colômbia, ou num país asiático, produziram mais dez toneladas da terrível mercadoria.
Por essas e outras razões, penso que o principal combate às drogas, hoje, deve ser feito em cima da demanda do mercado. Tem oferta porque tem procura (o poder público que administra a repressão parece achar que tem procura porque tem oferta). E aí emerge a grave e fundamental responsabilização dos cidadãos, basicamente dos adultos em relação aos adolescentes e às crianças.
Recentemente, o espírito Leocádio José Correia ditou uma interessante mensagem sobre o assunto (Como proceder diante das drogas, psicografada através do médium Maury Rodrigues da Cruz, publicada pela Sociedade Brasileira dos Estudos Espíritas, em Curitiba). Na verdade, uma crítica aos que estão cruzando os braços diante da crise. O pessimismo, o comodismo otimista, o conformismo comodista, a indiferença e a omissão, segundo Correia, são alguns dos fatores que podem levar os narcotraficantes à vitória.
Os pessimistas, alegando que as drogas vieram para ficar, preferem aceitar o fato - o que provoca um estímulo a que indivíduos mais fracos se envolvam com elas. Essa aceitação suicida da droga, não só corrompe, desvirtua a avilta a vida humana, mas nega peremptoriamente ao homem a capacidade de ser livre. Os comodistas otimistas consideram que as drogas são o resultado natural do desenvolvimento tecnológico, da vida contemporânea. Os conformistas comodistas acham que a solução do problema deve vir só da ação policial do Estado - mas esquecem que não é da competência da polícia alterar currículos escolares, ou, sozinha, mobilizar campanhas de educação permanente. Os indiferentes renunciam à dignificação da vida e entregam os valores morais. Os omissos evitam a questão dizendo que estão cansados de ouvir falar nela.
Os médicos encarnados, a seu turno, têm dito que pode até haver pessoas que apresentem uma certa predisposição genética mais resistente aos efeitos maléficos das drogas. Porém todos os usuários, todos, demonstram significativa diminuição das suas capacidades físicas e mentais - sendo que a maioria se destrói rapidamente (e alguns, completamente).
Por mais careta que pareça, não de pode ter vergonha de fazer um chamamento aos cidadãos conscientes para que se engajem nesse trabalho de educação, prevenção, esclarecimento, permanentes. Em todos os lugares do mundo, os pesquisadores têm revelado que a grande causa da demanda à drogas é a falta de atenção ao ser humano - o que gera o desrespeito, a impaciência, elementos que impedem a comunicação entre as pessoas. E sem comunicação, obviamente não há educação. (Talvez continue o tema na próxima semana).


