A dor que a TV não transmite
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quinta-feira, 27 de março de 2003
Florisvaldo Fier 
No primeiro dia da agressão americana ao Iraque, uma câmara fixa de TV da agência Reuters, localizada no hotel Al Rachid, transmite imagens para o mundo. Fixa, retrata o horizonte de uma cidade. Poderia ser qualquer cidade, mas não é. É Bagdá, cidade milenar. Retrata, naquela primeira noite do bombardeio, um frio e empoeirado horizonte, com um ou outro carro nas ruas. Ruas, prédios e carros. Paisagem estática. No dia seguinte uma repórter da CBN nos informa que aviões e foguetes bombardearam por 10 minutos o regime de Sadam Hussein, como se não fosse um país e um povo.
Os canais de TV, jornais e rádios registram inúmeros aviões que partem dos porta-aviões estacionados no Golfo Pérsico. Dão números. Simples estatísticas nos informando com precisão quantas bombas foram despejadas sobre Bagdá. Apenas objetos e frios números, não há emoção nem humanismo, como se no Iraque existisse somente um regime ditatorial (igual a quase todos do Oriente Médio) e que a razão da guerra seria a libertação do povo que ora vive uma imensa dor e mais o pavor da guerra. São milhares de bombas despejadas sobre Bagdá e cada uma delas montada pelo cavaleiro (Bush) da morte.
As imagens transmitidas pela Reuters, são as mesmas que há menos de 2 meses tive do Al Rachid e continuam presentes na minha mente e quiçá ainda nas retinas. São imagens que me trouxeram a recordação das mulheres, homens e crianças que cruzei nas ruas de Bagdá. Mulheres e crianças que olhavam para mim e riam. Riam da minha barba (uma vez que os iraquianos quase não usam barba). Algumas crianças se aproximavam rindo e estendiam as pequenas mãos para acariciar minha barba. Onde estão elas agora e que pavor carregam?
Os homens do Iraque gostam de futebol e da seleção brasileira e quando descobriam que éramos brasileiros logo gritavam: Brasil, Ronaldo, Rivaldo, Campeão... Onde estão e que dores carregam? Onde estão os que nos serviram no restaurante, os que nas ruas nos ofereceram frutas e pães? São pessoas anônimas que carregam na alma marcas causadas pelo sofrimento secular que o Eufrates e o Tigre guardam em segredo de guerras, discórdias e repressão. Qual a diferença entre a morte e a dor causadas pelo regime ditatorial de Sadam àquela vinda das armas e bombas americanas ou das baionetas dos marines?
Quando lá estive em fevereiro passado vi o retrato da violência americana. Visitamos a Amiriya, antigo abrigo, bombardeado por dois foguetes pelos Estados Unidos em 13 de fevereiro de 1991. Neste dia foram assassinadas 408 pessoas (mulheres e crianças). A explosão da bomba desintegrou os corpos deixando todos irreconhecíveis, colando pedaços humanos nas paredes, teto e piso. As marcas estão fisicamente presentes até hoje no concreto e na alma do povo iraquiano, onde ficarão para sempre. Nas paredes carbonizadas, no cimento e ferro retorcidos está presente a violência da guerra, da dor, do sofrimento e dos sonhos e esperanças destruídas. Quantas outras Amiriyas Bush causará?
Toda essa violência não é contada na TV. Não é possível sequer contabilizá-la através de estatísticas, pois ela está no corpo e na alma de quem a sente. A estatística cuida de números: quantos são os feridos e os mortos. Mas as dores dos Abdus, Mohamedes, Fatmas e Abbas Ali (de 4 anos de idade, com seu corpo queimado, gritando de dor é capa de jornais neste último domingo) jamais serão transmitidas. Esta dor não será transmitida pela TV.
FLORISVALDO FIER,, o dr. Rosinha é médico pediatra e deputado federal pelo PT


