A dor da nossa crise - Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
De tanto se falar e ouvir que vivemos uma permanente crise, ela perdeu a intensidade. É como a dor intermitente. Uma pessoa que padece de muita dor, acaba morrendo nos braços dela, já não distinguindo a maior ou a menor intensidade. E que crise é esta de que tanto se fala? Em termos genéricos, a crise está localizada no plano político, que abriga costumes, posturas e comportamentos, padrões e valores. Portanto, a crise é de natureza cultural. Sendo assim, não será uma reforma política que mudará a maneira de ser dos políticos e agentes públicos. Até porque uma reforma política trabalhará em aspectos pontuais, não atuando nas causas mais profundas dos problemas.
O mapa da crise começa no território dos valores. A lealdade, a ética, a solidariedade, o ideal coletivo, o respeito, a dignidade, a transparência, o zelo para com a coisa pública que devem constar do dicionário da boa política cedem lugar ao egocentrismo, ao interesse individual, aos grupinhos feudais, à deslealdade, ao maquiavelismo, aos golpes e armadilhas, à corrupção e ao poder invisível, que se espalha, como metástese, por todo o corpo político. Sem valores sólidos, o edifício desmorona facilmente como qualquer prédio construído com a simples areia de praia.
A crise se agiganta pela ausência de renovação de quadros e lideranças, principalmente destas últimas. Na galeria cívica, as fotografias do presente exibem fotografias emboloradas de perfis como Leonel Brizola, Paulo Maluf, Miguel Arraes, João Amazonas. E mesmo gente mais avançada e progressista começa a envelhecer a cara com as rugas da tradição, como Mário Covas, Lula, Itamar. Muito poucos podem se classificar como novos.
Alguém se lembra de um perfil que se possa enquadrar na categoria dos novos? Ciro Gomes? Tasso? Serra? Será que algum destes pode ser efetivamente considerado uma liderança nova na política? Fala-se de Anthony Garotinho como liderança emergente. Até pode ser. Faltam-lhe, porém, aquele peso conceitual, a massa valorativa, conhecimentos mais profundos, preparo para ocupar espaços mais importantes na política nacional. Assim, por falta de quadros mais qualificados, a política é, no geral, ocupada por uma categoria mais voltada para a defesa de interesses grupais. São os políticos orgânico-utilitaristas.
A democracia direta a que é exercida pelo voto do cidadão consciente está deixando o lugar para a democracia indireta, a da intermediação. Ou seja, os governos, que deveriam ser fruto da vontade popular, acabam sendo produto dos acordos, barganhas e mediações desenvolvidas por partidos amorfos e representantes distanciados da comunidade.
Um poder centrífugo dos centros para as bases, dos donos dos partidos para as periferias ocupa o espaço do poder centrípeto, que seria o poder exercido pelos eleitores. Significa dizer que a grande maioria do eleitorado vota de maneira consciente, mas seus representantes acaba traindo os compromissos assumidos nas campanhas eleitorais.
A crise aponta, ainda, para uma relação incestuosa entre os donatários do poder público, grupos econômicos e a burocracia administrativa. Para se perpetuar no poder, os donatários fazem concessões a grupos econômicos, até como pagamento do patrocínio de campanhas.
O eixo tecnocrático, por sua vez, alicia e é aliciado, costurando a malha do poder invisível, que se esconde nos porões das administrações. Qual é a consequência dessa monumental teia de interesses? A formação do Império do Maldade, com suas normas e princípios aéticos, costumes e comportamentos maquiavélicos, leis tortas e agentes do mal espalhados pelos quatro cantos do território nacional.
Essa é seiva do imobilismo e da manutenção do status quo, o verdadeiro veneno que contamina o oxigênio da política. Como evitá-lo? Com reformas mais profundas. A reforma do modelo econômico, com o objetivo de diminuir o tamanho das desigualdades sociais; a alavancagem da educação, mola da mudança sociocultural. Sem se reformar o homem, não se reforma a política. O resto é discurso de ocasião.





