Não há verdades definitivas no espantoso processo de desmonte da reputação do Senado da República. Stanislaw Ponte Preta, apelido de Sérgio Porto, notável cronista de histórias cariocas, quando o Rio de Janeiro tinha bom humor, produziu crônica hilariante sobre o marido que foi pego pela mulher transando com a empregada. Feito o flagrante, naquela situação constrangedora, os dois amantes nus na cama, madame não resistiu e mandou: ‘‘Mas o que está acontecendo aqui, Epaminondas?’’
Epaminondas, o nome inventei agora, não se deu por vencido. Não disse uma única palavra. Lançou uma olhar circunvagante, levantou-se, foi até a sala pegou uma bandeira do Flamengo, entrou no elevador e saiu para as ruas de Copacabana. Completamente nu. E pulando numa perna só. De vez em quando dava um grito pavoroso: ‘‘Mengôôôô’’. Foi cercado, vieram os policiais e ele foi preso por grave atentado ao pudor. Logo, no entanto, levaram-no para uma clínica de repouso. Foi dado como louco.
Os amigos providenciaram um médico conhecido da turma. Ele determinou que Epaminondas ficasse internado por um mês, período em que recebeu visitas dos familiares, todos proibidos de tocar no assunto empregada, transa, flagra etc. e tal. Depois de trinta dias, o indigitado cidadão voltou para casa. Sob severas instruções da clínica. Ele precisava de 60 dias de repouso absoluto. Ninguém deveria conversar sobre assuntos que ocasionassem novo surto psicótico. Assim foi feito. E o flagrante foi esquecido. Tudo voltou ao normal.
Mentir é uma arte que não vem sendo bem praticada em Brasília, nos últimos tempos. Nos governos militares, as mentiras tiveram pernas muito curtas. As torturas, os maus- tratos e as atividades conexas vieram à tona. O rumoroso caso do Riocentro também não resistiu a 15 minutos de investigação. O Exército até hoje insiste em esconder a verdade, mas os fatos desmentiram a operação abafa que se tentou na época. Militares não sabem fazer política. Costumam se atrapalhar com as perguntas dos jornalistas.
Políticos mineiros são sensacionais na doce arte de iludir o próximo. Eles são dissimulados entre eles. Difícil saber o que um pensa do outro. Lembro um caso de Tancredo Neves já escolhido pelo colégio eleitoral para suceder o presidente João Figueiredo. Havia o temor de que os militares revivessem a vocação autoritária e acabassem com a pequena abertura que se instalava na época, no Brasil. Tancredo foi conversar com Walter Pires, que era o poderoso ministro do Exército. Estava sendo montada a transição no poder.
Por sorte ou azar, uma repórter da TV Manchete documentou a chegada de Tancredo e a de Walter Pires se não me engano na residência do saudoso Carlos Castello Branco, colunista do ‘‘Jornal do Brasil’’. A equipe da TV fez as imagens e a repórter produziu o texto. O presidente eleito soube que os repórteres o haviam encontrado. Telefonou para a direção da emissora de televisão e obteve o compromisso de que nada iria ao ar. E não foi. O material foi apagado. O texto desapareceu. E Tancredo Neves negou até o fim de sua vida que tivesse ocorrido aquele encontro.
A crise atual que lavra no Senado é toda ela sustentada em mentiras, maiores ou menores. Não há certeza de nada. Os senadores se desdizem entre si. Um deles chamou minha atenção há coisa de um mês, dizendo: ‘‘A imprensa não quer ver. Vocês, jornalistas, estão cegos.’’ Pensei que era mentira. Depois que a confissão de Arruda balançou a instituição, ele reapareceu para confirmar num sorriso maroto: ‘‘Não disse?’’
Ortega y Gasset, notável pensador espanhol, diz que a mentira só sobrevive quando há nela um pedaço de verdade. Antonio Carlos Magalhães, experiente político nacional, conhece estas histórias. De agora em diante vai mostrar se ainda está em boa forma. E disso depende o futuro político de muita gente.
- ANDRÉ GUSTAVO STUMPF é jornalista em Brasília
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