Um pouco de civismo é o que está faltando nesse momento de disputas intestinas por ocupação de espaço no segundo governo de Fernando Henrique. A mola da disputa é (adivinhem?) o tamanho da verba a ser administrada no próximo exercício. A equação está armada: quanto maiores os recursos, maiores as possibilidades de alavancagem política para os grandes partidos que formam a base situacionista: PFL, PSDB e PMDB. Por enquanto, quem leva a melhor fatia do bolo orçamentário é o PFL, cujos ministérios que administra - Meio Ambiente, Minas e Energia e Previdência Social - somam a gigantesca cifra de R$ 66,3 bilhões. O segundo lugar pertence ao PSDB, com R$ 31 bilhões, repartidos entre a Presidência da República, a Educação, a Saúde, as Comunicações e a Administração. O PMDB fica em terceiro lugar, com R$ 6,8 bilhões, dos Ministérios dos Transportes, Justiça e Secretaria de Desenvolvimento Regional. Só depois, vêm o PPB e PTB, com R$ 4,8 bilhões e R$ 2,3 bilhões, respectivamente.
Fosse essa a conta a ser dividida, a situação estaria mais ou menos equilibrada. Mas o Ministério da Produção, que atrairia os bilhões do BNDES, acendeu a fogueira dos interesses. Os tucanos, que já se assentam na cadeira presidencial, querem dar continuidade ao projeto de Sérgio Motta, centrado na estratégia de ocupação de espaço por 20 anos. Por isso, se arregimentam, sob a batuta de um Mário Covas, que mostra um apetite nunca visto pela atividade política.
Covas corre de um lado para outro, frequenta eventos, faz palestras, comparece a emissoras de rádio e TV, visita cidades e multiplica inaugurações. Prepara o governo para uma administração voltada ao social, quando deverá circular mais próximo ao povo, abrindo caminho para 2002. Ele e Tasso seriam as bolas da vez. Serra passará por intermitentes tiroteios. Na esteira da defesa do Ministério da Produção, os tucanos contam com o apoio efetivo da indústria paulista, que se compraz pelo fato de que o conceito de produção ganha espaços.
Mas, como se sabe, com seu enorme bico, os tucanos são alvo fácil. Alguns acabam morrendo pela boca como peixe - e como Mendonça de Barros. Outros recebem tiros capazes de ameaçar o vôo, como essa pérola de conceito oferecida pelo mais competente político da República, ACM: ‘‘O ministro Serra é um santo, mas todos os pecadores nesses últimos episódios estão ligados a ele’’.
A estratégia de contenção à decolagem tucana está obtendo resultados, a ponto de já se ter como quase certa a decisão presidencial de criar o Ministério da Produção, sem a força original que agregaria. O PMDB, enfraquecido pelas últimas eleições, preocupa-se, fundamentalmente, em conservar os espaços já conquistados e arrumar a casa, depois dos entreveros e disputas internas. No médio prazo, tende a acender um discurso mais contundente na defesa da produção nacional e em favor de políticas sociais objetivas e imediatas.
Em alguns Estados, os traumas eleitorais já começam a se superar, prevendo-se, até, mais adiante, o estabelecimento de alianças fortes entre o PFL e o PMDB (mais o PPB e PTB) para enfrentar o rolo compressor do PSDB. Sabe-se que os compromissos táticos entre os partidos da base governista não resistirão ao segundo biênio do governo Fernando Henrique. Jamais o PSDB, detendo o centro do poder e exibindo plumas coloridas de tantos caciques, cederá o principal posto do poder a outros partidos.
Percebe-se, também, que, depois da morte do filho, o senador Antonio Carlos Magalhães parece ter reavivado o gosto pela política, numa espécie de preito póstumo a quem amava tanto a política. Exerce com tanto vigor sua missão que remoça, afastando os riscos da idade. Trata-se de um dos mais fortes candidatos ao assento no Planalto, em 2002.
Mas há quem aposte nas fichas novas de um PT oxigenado pelo banho de povo, a partir de lideranças emergentes do Rio Grande do Sul, como Tarso Genro. Olhos também se voltarão para o sempre surpreendente Itamar, em Minas Gerais. As querelas de hoje, como se pode decifrar, fazem parte dos projetos do amanhã.
- GAUDÊNCIO TORQUATO jornalista, é professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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