A divisão do eleitorado brasileiro
Se a divisão da sociedade brasileira entre pobres e ricos sempre existiu, evidencia-se também a divisão do eleitorado, e isto ficou demonstrado mais uma vez nesta eleição. Por mais que o presidente/candidato Luiz Inácio Lula da Silva declare que isto não é verdadeiro (a diferença nítida entre as classes de votantes), as urnas atestaram o contrário. Estudo da Radiobras mostra que nos 100 municípios mais pobres do Brasil, Lula obteve 72% dos votos no primeiro turno, contra 24% dados a Geraldo Alckmin. Os números foram exatamente idênticos em outros 100 municípios com maior número de desempregados. Nesses contingentes populacionais pesou a ajuda da Bolsa Família, mesmo que a infra-estrutura sustentadora da pobreza tenha continuado nos quatro anos de Governo Lula. Também o desemprego seguiu seu ritmo, e aquele benefício apenas abrandou a pobreza. Já nos 100 municípios com maior porcentual de empregados a votação foi mais equilibrada, mas com a vitória de Alckmin. Em outras 100 comunidades municipais de padrão de vida desigual Lula venceu, ocorrendo o contrário nos lugares com mais igualdade social. Também as regiões de mais analfabetos deram preferência ao candidato petista. Tais divisões são históricas no Brasil e ficaram bem marcadas nos tempos de UDN, PSD e PTB. O primeiro partido era das elites; o PSD, dos denominados brasileiros de raízes mais fundas (os descendentes dos ancestrais brasileiros quinhentistas), porém não propriamente os pobres, porque estes eram do PTB getulista - algo como o PT de hoje e que se manifestou no voto pró-Lula dos municípios pobres. Os eleitorado de classe social baixa e os analfabetos são decisivos nas eleições, e no presente caso os bolsões de pobreza tiveram peso forte nos resultados em favor do Presidente. Que perdeu com igual intensidade no sul e sudeste, onde, se também há miséria, concentram-se os maiores núcleos de produção e circulação de riquezas e onde o nível de politização é mais elevado. Essa realidade - o da força eleitoral da pobreza, especialmente nas regiões nordestinas - costuma reavivar temporariamente idéias de separatismo - o Brasil Sul e o Brasil Nordeste - partidas obviamente do pedaço sulino, que é diferenciado também ectnicamente, em face da presença mais forte de imigrantes europeus e sua descendência. O maior volume das verbas da Bolsa Família origina-se do sudeste e do sul, que pagam essa conta - e outras mais do empobrecido Nordeste - mas o eleitorado da parte de baixo do Brasil não votou em Lula neste primeiro turno e deve manter a tendência no segundo. Este fenômeno robustece a força dos candidatos que se estribam na manutenção da pobreza e da baixa escolaridade, porque lhes rendem votos.





