A divina rebeldia de Londrina
Walmor Macarini
Londrina é uma cidade rebelde, disse um dia o prefeito Hugo Cabral. Sempre foi assim, desde os primeiros tempos. Não fosse rebelde e não seria o que é. A primeira divina rebeldia começou contra as hostilidades do meio, quando os desbravadores aqui aportaram. Eles haveriam de cunhar, para os pósteros, a sua marca.
Londrina não é subserviente. Às vezes se contorce e geme silenciosa, aparentemente conformada, mas quando chega o ponto de fervura ela se põe em pé, e berra e grita. Nunca se curvou diante de governos, eis que nunca precisou muito deles, não obstante os estragos que eles são capazes de causar. Mesmo nos tempos da ditadura militar a cidade assumia postura de oposição. Enquanto o presidente e os governadores eram nomeados, Londrina elegia prefeitos e parlamentares que perfilavam entre os contrários ao regime. Não porque fosse do contra, mas porque rebelava-se diante do arbítrio e do desmando, e não tinha medo de manifestar isto.
Este jornal, sobretudo, foi historicamente rebelde. Seguiu os passos da santa rebeldia dos pioneiros e veio sustentando esse ideal, não sem ameaças e boicotes, inclusive por parte de alguns que hoje se postam como democratas, porém ditadores a seu tempo. O jornal retratava os sentimentos da civilização que aqui se instalara, e isto intrigava os governantes, e fazia que chegassem a Londrina precavidos e reverentes. Nem o jornal e nem a população jamais permitiram que Londrina fosse transformada num feudo. A cidade nunca se valeu de benesses governamentais e, pelas naturais características, nunca dependeu de empreguismo e jamais precisou lamber as botas dos prepotentes.
Muito interessante saber que Londrina não foi construída pela esperteza, mas por uma forte impulsão que se estribava em ideais de prosperidade, e por isso abominava os que chegavam com seus meneios e propósitos não muito bem explicados. Nunca se soube que algum deles tenha prosperado. É procedente o dito de que muitos chegaram pensando em dar um golpe na praça mas acabaram ficando honestos até por conveniência. Resultava, afinal, mais barato. Grandes espertalhões certamente apareceram, e fizeram seus estragos, mas não fincaram raízes, porque eles acabavam expurgados por um processo natural. Viviam embrenhados nas brumas e em meio delas desapareciam.
Agora, mais uma vez, Londrina mostra seu elevado grau de rebeldia, e afasta seu prefeito. Quando os vereadores não o fizeram, ela o fez, representada pela sociedade organizada. Porque Londrina é generosa, mas altiva.
Só lhe faltava cassar. Agora aprendeu mais esta.
A cidade ainda está envergonhada ante tanto escândalo, mas muito orgulhosa de mostrar, aos de fora que nos assistem, que soube dizer não, e que não estava de acordo. Uma vergonha, sim, para os vereadores, que vinham de todas as formas tentanto acobertar as verdades que iam aflorando (à exceção de uns pouquíssimos, contados pelos dedos de meia mão). Restaram a coragem dos cidadãos, a liberdade dos veículos de comunicação desta terra e a serenidade dos guardiães da Justiça.
Ainda que uma decisão de efeito temporário – porque estes são os caminhos que têm que ser seguidos – cai o homem mas robustece-se o poder. Não temos que alimentar sentimentos de vingança – porque isto é atributo dos oportunistas de plantão e que pertencem à mesma confraria dos aspirantes ao poder pelo poder – mas temos que nos orgulhar, sim, de haver dado um exemplo, não só a nós próprios cidadãos mas aos nossos filhos e netos e àqueles que aspiram cargos públicos e costumam enredar-se, cordeirinhos, mas vestindo roupagem de lobos. Fiquemos atentos a estes. Eles virão, valendo-se deste escândalo e falando muito dele. Chega de corrupção – dirão. Nós cidadãos o sabemos, não será necessário que nos digam. Fiquemos vigilantes àqueles que agora nos venham falar em valores de moralidade, pois não será de políticos que iremos aprender algo nesse sentido. Eles são, ao contrário, os professores que não queremos.
Queremos é ouvi-los falando de grandes idéias que possam trazer desenvolvimento e bem-estar para os cidadãos. Idéias bem fundamentadas, não discursos vazios, porque as pessoas já não aguentam mais!
Então, do que precisamos agora? Precisamos é manter acesa essa chama de rebeldia. Não a oposição cega e sistemática, mas a divina rebeldia que nos sustenta, em pé, como cidadãos. Os que têm a temer, estes são, sim, os que ocupam funções de governo. Que não brinquem com Londrina os que pensam que a têm sob controle!
Mas que o simples afastamento do prefeito não represente a deposição das armas, porque agora é preciso obter de volta o que foi subtraído. É muito dinheiro, e os cidadãos precisam recuperá-lo, para realizar as obras que faltam. É preciso resgatá-lo dos esconderijos onde se encontre.
No balanço final, o escândalo que ora vivemos serve para nos mostrar que este é um modelo que não queremos, que governantes como estes haverão de ser os derradeiros, que outros iguais a eles, nunca mais!
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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