A divina imperfeição
A divina imperfeição
O mistério da vida, ao longo da existência humana, sempre desafiou a inteligência, o talento, a sabedoria. Que fascínio exerce sobre as pessoas a questão do viver e morrer. Quantos homens e mulheres, desde o aparecimento deles, dedicaram suas vidas ao estudo: de onde viemos, para onde vamos? e o mais interessante é que, proporcionalmente, muito pouco se descobriu - embora investimentos fantásticos tenham sido feitos nesse sentido.
Por outro lado é curioso pensar - mesmo que pareça algo bem simples -, que as pessoas vivem buscando decifrar atraentes enigmas, sem perceber estarem deixando, muitas vezes, de viver. Ou melhor, viver mais próximas da felicidade. O espaço entre a vida e a morte é, a rigor, o mais importante. É nele que realizamos melhor, ou não, uma viagem pelo nosso passado, presente e futuro. Três tempos num só período, sem mistérios. Afinal, há quem acredite que vidas passadas fazem o presente e desenham o futuro...
Você pode pensar, neste instante, o que será a felicidade? Talvez mais um dos mistérios da vida. Mas, com certeza, você já experimentou algum dia, nem que por segundos a sensação maravilhosa de ser feliz. O corpo leve, a alma livre, um sabor de alegria. E isso não é mágico, mesmo que real?
O que são verdades e mentiras se não julgamentos humanos, diferentes imagens de uma mesmo prisma? Cada um de nós traz dentro de si o milagre da vida, mesmo que pensando diferentemente sobre isso e todas as outras coisas. O colorido da vida está nos contrastes, nos que amam e nos que não sabem amar - ou pensam que não são amadores e se negam ao amor, porque todos são, queiram ou não queiram, irmãos entre si e moradores de um mesmo planeta. Todos habitamos esse mundo maravilhoso, também de contrastes, ora nas montanhas ora nos vales, sob o calor do sol ou sob a suave brisa do luar, durante os dias e noites de nossas vidas.
Vivemos uma época de inquietudes emocionais, em tempos de incríveis avanços tecnológicos. Nós criamos tudo aquilo que nos amedronta, nos tira o sono. Que destino nos reserva o amanhã? Ao se aproximar o ano 2000 são tantos os nossos dilemas. Entre esses, certamente, o que mais nos aterroriza é a violência. O medo está envenenando nossa esperança, enfraquecendo a nossa capacidade de acreditar em valores básicos. O ser humano, como de resto qualquer outro ser vivo, tem a capacidade de adaptar-se. E aí está um grande perigo. Que cenários estamos desenhando para, no futuro, protagonizarmos nossa própria História? Vamos nos adaptar à violência, ao desamor?
A absurda lógica da violência tem nivelado os sentimentos na burrice da irracionalidade. Vale a reflexão: nós geramos seres que nós mesmos matamos. Por que? É hora de sentir melhor a dádiva de estarmos vivos, ter respeito pelo semelhante e usufruir com sabedoria a liberdade num mundo que ainda é nosso. É fundamental olhar além do horizonte e crer em mistérios sem, necessariamente, precisar decifrá-los. O mistério da vida e da morte está explicado na própria existência, na pacífica luta pela felicidade.
Mas, hoje em dia, alguns de nós estão meio perdidos. É compreensível, são tantos os caminhos, são tantas as dificuldades... Todos queremos chegar ao prometido paraíso, se possível aqui na terra e ainda em vida, embora com nossos defeitos. Calma. Pode ser mais fácil que imaginamos. Você já pensou em não ter medo da divina imperfeição? Em respeitar o próximo como a si mesmo, com qualidades e, também, defeitos? Simplesmente um ser humano? Mas, acima de tudo, respeitar a cada semelhante como cidadão, com direitos e deveres? Experimente, nunca é tarde para ser normal...
- RICARDO VIVEIROS é jornalista e escritor.





