A dívida e o bode
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sábado, 08 de março de 2003
Luiz B. S. Júnior 
É interessante ouvir cobranças e críticas tão veementes ao governo petista. Ainda mais porque o mesmo tomou posse há menos de 70 dias. Como bode-expiatório, culpam-no pela omissão das reformas sociais, o aumento abusivo do combustível, pelo desemprego, pela queda do poder aquisitivo do salário mínimo e pela alta dos juros bancários.
Nas penúltimas eleições, o presidente Lula defendia a moratória da dívida brasileira. Para vencer, precisou passar por um processo de reciclagem política que condisesse às necessidades requeridas de um chefe de Estado capaz de honrar compromissos. O Lula light adequou-se ao estigma e de certa forma ''paga caro'' por isso. A dívida externa brasileira é fruto da política fracassada marcada pela corrupção e a exploração das nações imperialistas.
Hoje, ela gira em torno dos R$ 880 bilhões. Acima de tudo, o endividamento público sempre favoreceu os interesses e privilégios da elite brasileira. A expansão da dívida está relacionada com as classes dominantes que, em toda a história e atualmente, têm sido coniventes com instituições financeiras do exterior. Não obstante, o Brasil vai ficando mais pobre a cada desvalorização do Real.
O endividamento externo, contraído na moeda americana, leva a necessidade de captar mais dólares para quitar o serviço da dívida. O atual cenário econômico internacional, inconstante pela ameaça de guerra ao Iraque e pelo início do longo período que segue à submersão do Império Americano, só faz piorar a situação. No mundo globalizado que, como efeito dominó, prejudica em muito o Brasil.
Mas a política vergonhosa não se restringe apenas ao quadro internacional. Por mais injusta que seja, a dívida só poderá ser quitada no momento em que a casa estiver arrumada. No entanto, as Reformas necessárias (da Previdência, Judiciária, Agrária, Política etc) não dependem exclusivamente da vontade do Presidente e sim da mobilização do Congresso.
E o dedo na ferida é que se há políticos deixando os interesses da nação em segundo plano, é por consentimento dos que os elegeram. Isso é consequência da alienação cultural, porque 85% das pessoas não comentam política antes das eleições. Por outro lado, é bem verdade que algumas medidas petistas têm sido questionáveis, mas ainda não cabe ao brasileiro atribuir a Lula à culpa de toda a desventura resultante das políticas passadas. De 1994 a 1998, o País remeteu ao exterior R$ 128 bilhões para o pagamento do serviço da dívida, e em 1999 mais R$ 67 bilhões. No mesmo ano, o Governo Federal destinou R$ 9 bilhões para a Saúde e somente R$ 12 bilhões para a Educação. Um cálculo aproximado aponta para uma perda anual de R$ 100 bilhões para a corrupção.
Conclui-se propondo uma auditoria da dívida pública e de todo o processo de endividamento brasileiro, com a participação ativa da sociedade civil, a fim de verificar contábil e juridicamente se há de fato condições de quitá-la, e de estabelecer normas democráticas de controle sobre a inadimplência. A decisão final poderia ser dada em plebiscito nacional ou pelo Congresso. Mudança se faz com atitude e vergonha na cara.
LUIZ BALBINO DA SILVA JÚNIOR é estudante de Jornalismo em Maringá


