Pouco se consegue do governo federal se não for mediante pressão que não deve confundir-se com desordem pública e ninguém mais forte para pressionar que os governadores. Nesta segunda-feira, em Brasília, eles se reúnem para reivindicar a mudança de cálculos em seus débitos com a União. O espírito que domina o encontro dos 27 titulares dos Estados é mostrar força pela unidade e atente-se que de um grupo multipartidário porém não com o sentido de confronto mas de cooperação, conforme anunciam. Num momento de fragilidade do poder central, os governadores visam restabelecer uma antiga prática de unir-se, ao invés de fragmentar-se em solicitações isoladas. Buscam, assim, fórmulas conjuntas de solução dos seus problemas e também ''pensar o Brasil'', como diz o governador mineiro Aécio Neves. Mas, segundo ele, ''não se pode ajudar o País com os Estados esfacelados''.
O fato de a reunião realizar-se na capital da República e não em outro lugar parece demonstrar que o propósito não é, mesmo, confrontar o Planalto e nem acuar o presidente Lula, com o qual os governadores têm uma relação de harmonia ao menos nestes primeiros 16 meses de governo e, em vários casos, de amizade pessoal. Os Estados devem à União R$ 284 bilhões, que significam 20% das respectivas receitas líquidas, e a choradeira se fundamenta na assustadora progressão da dívida. Tomando-se o caso de Minas Gerais, o Estado devia R$ 15 bilhões seis anos atrás e, depois de haver pago a metade, deve hoje R$ 31 bilhões. Se uma tal realidade torna inviável a sobrevivência financeira dos Estados, o governo federal parece irredutível em fazer grandes concessões, pela posição do Ministério da Fazenda manifestada através de porta-vozes. O que não se compreende, porque o Brasil é um só e dívidas entre poderes públicos são como um ajeitamento de contas na cozinha de uma família. A fonte da receita é a mesma o contribuinte e o montante do dinheiro forma um só pacote.
Se é certo que uma unidade da Federação que deve mais à União pode estar subtraindo uma parte da que deve menos, no contexto geral devedor e credor compõem o mesmo sistema governamental, entenda-se um só cofre. Estados endividados com o Tesouro e tendo de pagar alta soma pelo serviço da dívida, para não falar do débito principal, significam enfraquecimento das bases, que é de onde o dinheiro se origina e onde deve ficar, para que não haja concentração de renda. As bases formam a República, e se os Estados, e por extensão os municípios, vão bem, o Brasil irá bem. O argumento do credor é que concessões da União, que impliquem em negociação das dívidas, irão afetar o seu equilíbrio fiscal, o que é verdadeiro quanto ao aspecto contábil, mas se fosse possível uma anistia geral nada se alteraria no conjunto da economia nacional, porque os Estados, sem o ônus da dívida e das respectivas correções, promoveriam seus projetos de desenvolvimento e fariam da mesma forma o País crescer, e talvez ainda mais velozmente.

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