No Brasil, aqueles que ainda têm um pouco de dinheiro o põem na poupança ou CDBs, ao invés de gastá-lo. Com isto favorecem a recessão, porque interrompem a circulação da moeda e ajudam a que esse instrumento produtor de riquezas se acumule em poder de instituições financeiras (bancos incluídos) e na extensão o governo. O dinheiro, assim, não faz o seu giro, não desempenha a sua função. Deixa de ser um meio e transforma-se num fim.
Poupar é nocivo para a economia. O certo é gastar. O conceito de poupar, nas economias auto-sustentáveis, é comprar tudo o que se necessita, usufruir de todos os prazeres que o dinheiro proporciona, incluindo turismo e lazer, e depois de tudo isto poupar o que sobra. Como nessas economias estáveis os salários são altos, então se gasta muito, e porque se gasta muito as empresas vão bem e pagam bons salários. É a reação em cadeia, que os ‘‘sábios’’ do altiplano brasiliense e a classe empresarial, aqui entre nós, desconhecem.
Gastar e (no Brasil) comprando à vista, esta a fórmula, porque prestação é ilusão. Nela estão embutidos juros altíssimos, que, sem que ninguém o perceba, têm gerado inflação muito alta, na exata proporção do aumento que incide sobre o que se compra a prazo. No balanço aí se verá quanto dinheiro jogamos pelo ralo. E o que é isto senão inflação? Só quem não paga inflação no Brasil é o consumidor orgânico. Aquele da cesta básica. Para ele, sim, a inflação é de 0,5%, e ainda bem! Mas para a empresa que desconta duplicata em banco e com aqueles outros agiotas denominados factories, que faz empréstimo e ainda tem que se valer do cheque especial, aí não venham dizer que a inflação é de 0,5%. Existem no Plano Real duas inflações: aquela dos 0,5% de quem só gasta no armazém, e a do custo do dinheiro para os segmentos produtivos, que são as macro, médias e microempresas; e para os que adquirem bens duráveis. Se compramos um bem em 36 meses pagaremos quase outro em juros. Se o preço à vista é 10 pagamos 17, então já há aí um acréscimo de ‘‘apenas’’ 70%.
Em tudo o que se compra a prazo há pesados juros embutidos. Tanto que hoje nenhuma loja quer vender à vista (dando desconto) porque a venda a prazo é uma forma de agiotagem. É a volta da especulação financeira. Uma artimanha de ganhar não com o ramo do negócio mas com os juros.
Uma boa política é começarmos a valorizar o nosso dinheiro. Não comprar a prazo mas só à vista, e exigindo descontos. De até 40% se for mercadoria de grife e em lançamento. Sabe-se que o preço é pré-fixado pela franquia, mas é justamente ela que temos que atingir. Franquias abusam, e nós babacas pagamos. Se todos reagirem, vira fashion... Os comerciantes, na maioria - ressalvados os supermercados, que estes já aprenderam - ainda vivem a memória da especulação financeira. Com algumas destacáveis exceções, eles não querem ganhar no maior volume de vendas mas no juro das prestações. Com essa política a tendência é venderem cada vez menos. Alguns fecham. As tais ‘‘queimas’’ de estoque não significam perda para eles. Antes, uma demonstração de atraso empresarial, porque ‘‘queimas’’ deveriam ser um ato normal o ano todo. Como acontece nos países desenvolvidos, onde os empresários já ultrapassaram aquela mentalidade troglodita.
Outra boa prática é evitar bancos. Dinheiro emprestado de banco é dinheiro contaminado. Aqui no Brasil. Porque nos Estados Unidos, por exemplo, o juro sobre empréstimos é de 3% a 4% ao ano, e se você deve ao banco 5 mil dólares e não pode pagar, ele lhe empresta 10, para você quitar os 5 e ainda utilizar os 5 restantes. O banco ganha, mas também dá função social ao dinheiro.
No Brasil o banco dá o nó mortal no empresário sufocado. Lá, o banco o salva. O resultado dessa política é os EUA haverem chegado a apenas império do mundo...
Dinheiro de banco, no Brasil, já vem contaminado por vírus denominados 4%, 6%, 10%, 15%. Esses vírus levam o paciente, já no impaludismo, à completa inanição. Hoje os nossos bancos não emprestam dinheiro para o mais comum dos mortais. Nem a empresas, para ideais de desenvolvimento. No passado os bancos serviam às cidades, hoje se servem do dinheiro delas.
As prefeituras deveriam cobrar impostos altos dos bancos e exigir-lhes contrapartidas quando eles se instalam nas cidades.
O governo, de sua vez, vai bem - embora a economia vá mal - porque quando lhe falta dinheiro cria mais impostos. E tem todo o dinheiro dos bancos à disposição, porque hoje é o seu maior cliente. E banco não quer briga com o governo. Ambos, no Brasil, são instituições sugadoras das economias das bases. Saímos de uma ditadura militar e entramos na ditadura econômico/recessiva do governo e do juro virulento dos bancos. Governo e bancos vivem um do outro, se auto-sustentam e se auto-socorrem. O banco não tem dinheiro para o empréstimo pessoal e para a empresa que quer recuperar-se, mas tem para o governo. E o governo não tem dinheiro para as causas da saúde mas tem para o juro alto que paga aos bancos. Juro alto, ademais, de que se vale para sustentar a política externa de marketing do Real.

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