Com a aproximação das eleições gerais de outubro, destacadamente a sucessão presidencial, o desenvolvimento da situação política nacional está sendo marcado por uma série de manobras e jogadas comandadas pelo Palácio do Planalto com propósitos claramente continuístas.
A recente convenção do PMDB, quando a ala governista impediu o lançamento de candidatura própria à Presidência da República, trouxe à tona mais uma vez o caráter e a face espúria dos métodos empregados pelo governo de FHC quando se trata de impor suas posições. Não é de hoje que as famigeradas práticas do fisiologismo, da barganha, da compra de votos, do tráfico de influência, se constituíram em instrumento principal do governo de FHC para a aprovação de projetos de seu interesse no Congresso Nacional e a imposição das soluções políticas que lhe convêm. A própria emenda da reeleição foi aprovada em votação viciada, tendo o mesmo ocorrido com todas as demais emendas constitucionais reacionárias. Mas agora, quando se jogou a cartada decisiva na montagem do quadro eleitoral, o governo FHC e seus aliados se superaram.
A decisão do PMDB de aderir à sua candidatura, que a partir de então engloba um vasto bloco de forças conservadoras, da direita ao centro (PSDB, PFL, PMDB, PPB e outras legendas menores), foi o resultado da violência, da mobilização de marginais a soldo, travestidos de ativistas, da corrupção desbragada, da formação artificial de uma maioria precária, na 25ª hora do mais vergonhoso leilão de votos já visto no país. No deplorável episódio, honoráveis deputados, senadores, ex-governadores, perderam o decoro, excederam-se em baixarias, ofensas pessoais, agravos a atuais rivais que outrora foram aliados, enquanto o inquilino do Planalto pronunciava chincanices.
Agora, enquanto a oposição sofre restrições de todo o tipo e disporá de um período de tempo reduzido para realizar sua campanha, o estado maior da candidatura de FHC entra em cena com pleno vigor, transforma as inaugurações de obras em palanque e promove as mais diversas formas de uso da máquina governamental para fins eleitorais. Além disso, conta a seu favor com uma mídia subserviente e automaticamente alinhada e poderá ter mais da metade do horário eleitoral gratuito. A campanha eleitoral começa, assim, com uma correlação de forças adulterada por meio do golpe e da fraude. Eliminando os concorrentes de centro, a palavra de ordem palaciana é ganhar a eleição no primeiro turno. Pretende-se criar um clima artificial de ‘‘já ganhou’’.
Portanto, a imposição de FHC como candidato único das forças conservadoras, com apoio do capital financeiro internacional, é motivo forte para fazer soar o sinal de alarme para o povo brasileiro e as forças organizadas progressistas, democráticas e patrióticas da sociedade. Por trás do proscênio da luta sucessória e da reacomodação das agremiações partidárias das elites, desenvolve-se cada vez mais intensamente o processo de liquidação do regime democrático e da ordem institucional implantada no país desde o fim do regime militar.
Sob a égide das contra-reformas conservadoras - fenômeno de dimensões mundiais que no Brasil aprofunda a dependência ao exterior e transforma a crise social em tragédia - as elites dominantes caminham, mas celeramente do que muitos se dão conta, rumo à instauração de um sistema político fechado, excludente, com poderes excessivos e monopolizados nas mãos do presidente da República e de um seleto condomínio de chefetes de dois ou três partidos políticos conservadores. As mudanças já efetivadas na Constituição e as que se pretende impor caso o atual presidente seja reeleito, dão forma de uma espécie de ditadura civil constitucional cujo escopo é levar às últimas consequências o receituário conservador do capital financeiro internacional e perpetuar as elites retrógradas no poder. Não se trata de uma opção tática relacionada com interesse políticos imediatistas, antes corresponde a uma orientação estratégica, porquanto a plena aplicação e vigência do neoliberalismo econômico requer, no plano político, a instauração de regime autoritário.

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