A ditadura das autoridades públicas
O princípio da autoridade só não está falido porque, contra os cidadãos comuns, as leis são aplicadas e funcionam com severidade. Mas, no âmbito da vida pública, está implantado um regime ditatorial de Estado, porque os poderes se cercam de elevados salários e mordomias, sem que nada os impeça. E tudo amparado por lei que os próprios legisladores criam e que agora permitiu aos parlamentares federais dobrarem os seus ganhos. E o fizeram apoiados na referência de outro poder, o judiciário, que serviu de parâmetro para o exorbitante presente de Natal que eles próprios se concederam. Como, de sua vez, o nível salarial do Congresso serve de base para as assembléias legislativas, os deputados do Paraná - só para citar o caso próximo - cuidaram rápido (até para não perder prazo) de elevar seus salários na proporção correspondente. E os vereadores, onde permitido pelo critério constitucional, já cuidam da parte que lhes toca por benesse nesse latifúndio. Mas não apenas os integrantes graduados dos três poderes, porque também as categorias dos servidores de elite do Executivo e os advogados da União pedem carona e querem receber o mesmo beneplácito dos 90,7% de aumento. Se a farra instalou-se no arraial, todos desejam entrar na ciranda. Porque se os deputados e senadores espelham-se em outro poder, se os deputados estaduais seguem os colegas do Congresso e se os vereadores vão na onda dos co-irmãos das assembléias, os servidores mais graduados seguem a mesma corrente. Um regime com característica de anarquia, mas não por inteiro porque um sistema anárquico clássico seria o de um povo em que o poder de governo tenha desaparecido, com a negação do princípio da autoridade. Como, no caso brasileiro, as autoridades públicas nunca estiveram tão livres para mandar e desmandar em benefício próprio - o mesmo não acontecendo em igual condição com o povo - implantou-se a anarquia vulgar da subversão de princípios e a desmoralização. O caos está solenemente instalado no círculo dos poderes. Porque, aparentemente, só o poder divino pode julgar e punir os atos dessa gente privilegiada. O poder central está muito fortalecido dentro de suas próprias muralhas, mas o regime fragilizou-se, pela decadência das instituições. A provocação das autoridades contra o povo já passou dos limites, e será ingenuidade pensar-se que o Brasil é uma democracia sólida que resista continuamente a esses desaforos.





