A ditadura da corrupção imperando
No Brasil vive-se uma quase ditadura governamental em tempo de proclamada democracia. Porque, se todos os institutos legais existem e não estão revogados, apenas isto não basta, porque o poder arbitrário dos governos é muito grande. O arbítrio está presente no arrocho tributário, nos gastos abusivos, nas mordomias, nos precários atendimentos sociais e no desrespeito aos cidadãos. Uma dominação que foi se robustecendo pela ausência de reação popular e por isso chegou a ponto insustentável e mais difícil de enfrentar. Porque, onde quer que exista uma atividade pública, é muito provável que aí rondem as irregularidades.
Confiantes na impunidade, os políticos do círculo parlamentar e os administradores públicos já não se envergonham dos seus atos de improbidade quando denunciados e expostos publicamente, porque no mais dos casos escasseia-lhes a consciência da moralidade. No momento a nação inteira está indignada com o episódio da absolvição de Renan Calheiros no âmbito do Senado, mas em poucos dias o fato será esquecido até que surja um novo, do mesmo gênero. Se as lideranças extragovernamentais deste país não se moverem arrastando junto o povo para um vigoroso enfrentamento da situação, a ditadura ora vigorante não será exterminada.
Bradar, manifestar-se por via dos veículos de comunicação, é preciso, mas sem mobilização como as célebres marchas do passado e a tomada de Brasília pelo povo cheio de razão, será como malhar em ferro frio. E não só marchar sobre a capital da República mas também sobre os palácios governamentais dos estados, as assembléias legislativas e as câmaras municipais, quando isto se fizer necessário. Melhor que o povo o faça, antes que entusiastas de regimes piores se adiantem e reeditem tempos amargos já vividos. Se algo precisa ser feito, que o seja pela via democrática, embora esta também possa se valer da força. Porque democracia se escreve também pela ação destemida e às vezes demolidoras das multidões.
Se a corrupção existe em muitos governos do mundo, viu-se agora que o primeiro-ministro japonês imediatamente renunciou, depois de denunciado por evasão fiscal. Recentemente, também no Japão, dois homens públicos cometeram suicídio, pela vergonha de haverem sido flagrados em envolvimento de corrupção. Não propriamente envergonhados pelo que fizeram mas por serem descobertos e execrados. No Brasil, Renan Calheiros resistiu todo o tempo a um gesto honroso de renúncia e resultou beneficiado. Pelo exemplo, amanhã outro fará igual, porque a esta altura os corruptos na ativa e os potenciais estão robustecidos do sentimento de garantia, sabendo que tudo de nefasto podem fazer, porque a porta da impunidade é larga. Se assim é, a hora acena para um posicionamento popular e um grito de guerra contra esse regime afrontoso, que governa muito pouco para o povo e mais em defesa de si mesmo.





