A distopia enquanto instrumento político
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segunda-feira, 07 de setembro de 2020
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Demorei duas semanas digerindo o infame editorial da "falha de São Paulo" ‘Jair Roussef’. Já venci esta etapa. E você? Pronto para vencer a indagação civilizatória que o mundo faz por conta da comparação descontextualizada que alinha uma vítima de tortura na ditadura militar com o entusiasta de seu torturador?
Vamos lá, não sem antes tornarmos aquela menina de dez anos estuprada e engravidada pelo namorado da tia, que foi julgada pelo fundamentalismo.
Creio que uma coisa talvez explique a outra, na medida em que a jovem vítima tornada ré pelos fundamentalistas (que acreditam piamente nas pós-verdades que recolhem na rede: a terra plana, gripezinha, movimento de 64... ) foi de vítima a vilã pela disputa política de sua condição.
Foi exatamente isso que passou com a ex-presidenta Dilma, ao ser alinhada pelo editorial da falha ao apologista de seu torturador Brilhante Ustra.
Parcela considerável da imprensa comercial brasileira sempre se alinhou aos interesses da classe dominante. É fato histórico. Mas a "falha de São Paulo" não se contentou com o alinhamento ideológico, na medida em que auxiliou a ditadura no fornecimento de veículos para transporte dos adversários políticos que seriam torturados, conforme desnudado pela comissão da verdade. Agora compara quem foi torturada com o apologista de seu torturador.
Não surpreende, embora enoje.
Ser adversário político reclamaria a diversidade na esgrima de pensamentos e atitudes distintas para as mais diversas situações da vida pública, que vão da economia ao desanuvio das diferenças, com implemento de saúde, moradia, empego, educação, segurança e mais quimeras deste naipe.
O pensar diferente não tornaria antípoda em inimigo. O que cria o inimigo talvez seja a pós-verdade que estabelece uma sociedade distópica onde a história passa a ser questionada pela manipulação da realidade.
Seria o equivalente a um ministro de estado buscar a desqualificação da universidade ao argumento mentiroso de que lá não se faz ciência, mas se planta maconha.
Terraplanistas seguem esta linha e já estão à cata do túmulo de Galileu.
Fato é, criamos uma sociedade distópica onde a rede mundial abastece boatos mentirosos e afasta os homens de sua essência racional, criando um momento estúpido onde sororidade e respeito não são mais que objetos de barganha na fila do pão, não valendo senão o léxico e a simbologia das próprias completudes...
O editorial infame me faz questionar e repensar o papel da imprensa. Tolice querer que o dono do modo de produção se alinhe aos descamisados. Bobagem pueril acreditar que mais possa, um dia, ser menos. Mas importaria (deveria) a preservação da realidade. Deveria fazer diferença o afagar racional da história em ordem a estabelecer parâmetros de segurança no entorno das conquistas civilizatórias.
Mas não. Astronautas que somos, visitamos planetas e transpusemos os limites do céu multicor, mas não viajamos a bordo de nossos pensamentos – conforme ensinaram os Nonatos.
O pensamento no século vinte e um vem represado na incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro e já não nos desligamos de nossos primitivos devaneios. Tampouco olhamos o amanhã com a certeza da beleza que o dia de hoje desenrola.
O mundo já não é tão vasto, nem Raimundos são suas rimas, ainda que sigam longe de serem a solução.
Por hora, conhecer história pela leitura dos livros indicados pelos professores e não nos textos da rede mundial, segue sendo o único caminho para não nos perdemos ainda mais, evitando a trilha circular que leva ao inferno – fato que, ao juntar a torturada com o apologista da tortura, delimita seus portais e assanha o próprio Cérbero...
Tristes e não empáticos trópicos onde vítima pueril de estupro familiar e a de tortura política são, pela lente fundamentalista e pela disputa política, igualadas a seus algozes.
Saudade Pai, você ensinou sombra e luz...
João dos Santos Gomes Filho, advogado


