A disputa pelo comando do Congresso
Hoje é dia de eleição dos novos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Esta é, com certeza, uma das mais tumultuadas eleições da história do Congresso, em virtude das graves denúncias que envolvem diversos parlamentares. O importante a considerar é que essas denúncias não se tratam apenas de uma questão política, como muitos desejam colocar à opinião pública mas, fundamentalmente, trata-se de questão ética e moral.
O resultado é esperado. O senador Jader Barbalho e o deputado Aécio Neves deverão ser eleitos, embora surpresas possam acontecer de acordo com a máxima de que em política tudo é possível. Qualquer que seja o final, o Congresso sai com a sua imagem bastante arranhada perante a sociedade brasileira.
O Congresso é o templo da democracia, porque lá se encontra a síntese do povo brasileiro. Por isso, nós devemos respeitar e até compreender as suas ineficiências, mas também temos o direito de nos indignar diante de determinados fatos. A eleição dos presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados contém lances que levam, no mínimo, ao ridículo quando não, afrontam a opinião pública.
É possível que o povo esteja assistindo a tudo isso com indignação. Afinal, até aqui tudo indica que o futuro presidente do Senado será uma pessoa formalmente acusada de ladrão. As irregularidades e a corrupção vêm sendo investigadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, que têm em seu poder farta documentação sobre as denúncias. São dezenas de processos instaurados.
Estas acusações relançadas por ACM são antigas e várias vezes pautaram a mídia nacional. Aliás, toda a elite política sabe até aonde vai a realidade das acusações. Aqui se deve ressaltar a postura coerente do senador Roberto Requião, que foi o único no PMDB a votar contra a candidatura de Jader Barbalho. Mas, a maioria dos políticos é produto do mesmo meio, além de conviver com esta situação, ainda nela procura apoio.
Aqui vale um parêntese, para relatar um fato ocorrido na Câmara, que com os devidos descontos nos dá uma idéia da moral que permeia parte da instituição. Há alguns anos, como está acontecendo hoje, um grupo de quatro deputados foi acusado de mudança de partido, em troca de benefícios financeiros. Três deles negaram ter recebido o dinheiro (embora todos soubessem da veracidade dos fatos). Apenas um deles confessou. Era um novato. Suplente de deputado que, pela primeira vez, estava no Parlamento e dada a sua ingenuidade achava que esses recursos seriam uma ajuda de campanha e mais ainda por sua posição religiosa resolveu contar a verdade. Conclusão: este foi o único indicado para a cassação do mandato, o que de fato aconteceu.
Observando que era o único que havia contado a verdade e analisando a sua condição de iniciante, achei por bem ajudá-lo para atenuar a sua pena. Foi aí que um líder partidário, por coincidência envolvido nos fatos atuais, desaconselhou a minha posição com o seguinte argumento: O deputado não está sendo cassado por ter recebido dinheiro, mas sim, porque confessou. Aqui, o parlamentar pode ser tudo, menos idiota.
Aécio Neves passou a apoiar Jader Barbalho conseguindo em troca o apoio do PMDB à presidência da Câmara. É lamentável assistir ao que está se fazendo para chegar ao poder. Nesta linha, o ridículo aparece quando Aécio e Inocêncio Oliveira, para conquistar o apoio do PT, tentam mostrar que defendem os mesmos pontos de vista, como exemplo, colocando-se contra as privatizações e as medidas provisórias, que até bem pouco tempo com tanto entusiasmo defendiam, até porque são líderes do governo.
É possível que a conduta de Aécio tenha sido combinada com o presidente FHC (isso faz parte do show), e caso atinja a vitória com o apoio do PT verá como administrar as promessas. O próprio Partido dos Trabalhadores está jogando para a platéia, tentando tirar proveito dessa situação e no segundo turno apoiar Inocêncio. Desprezado e magoado, Inocêncio está disposto a vender a alma para conseguir o apoio do PT.
Sem dúvida, o poder atrai e o jogo que se faz para chegar lá deixa muito a desejar em termos éticos. É interessante observar que, de forma geral, mesmo políticos sérios na origem, com o tempo vão se contaminando com a regra do jogo a fim de se manter no poder. De qualquer forma, é constrangedor ter qualquer um desses três atores dirigindo o Congresso. Mesmo com o estrago já causado, não seria de todo ruim uma surpresa para mudar esse cenário e reconstruir o respeito necessário ao Legislativo brasileiro.
- REINHOLD STEPHANES é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-ministro da Previdência e Assistência Social





