A dignidade brasileira
Mirian Guaraciaba
Há anos, muitos anos, o governo deixa passar batido um problema de proporções gravíssimas: a importação de leite a preços tão módicos que, no Brasil, não pagam sequer o salário do peão que tira o leite da vaca. Até há pouco tempo, as autoridades fingiam que o assunto não existia, enquanto os produtores brasileiros vão à bancarrota. O exemplo é pequeno diante das dimensões do País. Mas suficiente para mostrar quanto as autoridades públicas estão descuidadas em questões fundamentais para o nosso desenvolvimento. Não apenas o desenvolvimento do País, mas do povo brasileiro.
Tomara que não tenham sido tardias as providências tomadas recentemente pelo ex-ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, ameaçando os argentinos com barreiras alfandegárias por causa do leite – a acusação contra a Argentina é de triangulação com o produto, ou seja, importam de outros países para vender ao Brasil.
O ex-ministro pôs a mão no problema quando assumiu o Desenvolvimento, mas sabia de sua gravidade ainda no Gabinete Civil da Presidência da República. No Palácio do Planalto, Clóvis barrou a pretensão de técnicos ligados ao governo federal de introduzir o leite em pó importado em cestas básicas ou na merenda escolar.
Em novembro, o caso do leite exportado pela Argentina para o Brasil será analisado em Genebra, pela Organização Mundial do Comércio. Se os argentinos forem condenados pelas normas internacionais, o ex-ministro levantaria barreiras. Não se sabe se seu substituto Alcides Tápias, cujo nome foi anunciado anteontem à noite, e o colega da Fazenda, Pedro Malan, estarão dispostos a fazer a mesma coisa.
O Brasil é bom produtor de leite. Mas nossos preços, é claro, não são competitivos. Nossas dificuldades são grandes, os encargos são muitos. O produtor recebe menos de R$ 0,18 por litro. O consumidor paga quase R$ 1,00.
O caso do trigo é parecido. Ao longo dos últimos anos, com governos e políticas voltados para o comércio exterior, passamos a importar mais e mais trigo. Hoje, produzimos menos de um quarto do que consumimos – a produção não chega a 2 milhões de toneladas.
Ao assumir o Ministério da Agricultura na reforma ministerial de julho, Pratini de Moraes anunciou números otimistas que reverteriam, em parte, o dramático quadro da agricultura brasileira. Em 2000, vamos exportar US$ 2 bilhões em frutas, contra os US$ 220 milhões de 1998. As carnes passariam de US$ 580 milhões em 98 para US$ 1 bilhão no ano que vem.
Mas a melhor notícia dada por Pratini tem a ver com questão igualmente vergonhosa, que nos coloca em posição de inferioridade no mercado internacional: a ocorrência de doenças em nossas lavouras. Grave mesmo é que as pragas são importadas por nós. Chegam em produtos de quinta categoria trazidos de outros países.
Se as providências são para valer, saberemos em pouco tempo. A dignidade brasileira está em jogo. Já estamos perdendo o fôlego e a coragem. Não podemos perder, de vez, a compostura.
- MIRIAN GUARACIABA é jornalista em Brasília

mockup