A diferença entre não gostar e censurar
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quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Espaço Aberto 
Como se comportariam bolsonaristas se a charge do Bolsonaro censurada em uma exposição em Porto Alegre fosse uma charge censurada de alguém da esquerda? Provavelmente estariam clamando por liberdade de expressão. Como se comportaria alguém de esquerda se o livro censurado na Bienal do Rio fosse um livro de direita e politicamente incorreto? Provavelmente estaria festejando. Do ponto de vista da coerência, e do ponto de vista do respeito à liberdade, ambos estariam errados. O propósito deste artigo é esclarecer a fonte do erro.
Suponha que uma pessoa aprecie alguma expressão de liberdade qualquer – digamos, um livro. Suponha agora que um segundo livro se apresente como uma violência contra os valores e crenças dessa pessoa. Podemos dizer que a pessoa gosta do primeiro livro e não gosta do segundo livro.
Suponha agora que a pessoa não apenas não goste do segundo livro, mas deseje agir contra ele. O que ela pode fazer? Ela pode, por exemplo, escrever uma resenha crítica contra ele; ela pode declarar que o livro é contrário a seus valores. Mas ela pode também fazer algo mais: ela pode tentar censurar o livro. A razão para essa tentativa de censura seria, obviamente, a falta de conexão entre o conteúdo do livro e seus valores.
Suponha agora o inverso. O primeiro livro estava de acordo com os valores da pessoa, mas não estava de acordo com os valores de uma segunda pessoa. Essa outra pessoa age exatamente como a primeira e tenta censurar o primeiro livro.
Todos sabemos o que aconteceria: a primeira pessoa acusaria a segunda de praticar a censura contra o segundo livro, e a segunda acusaria a primeira de praticar a censura contra o primeiro livro. Tem algo errado aí.
E o que há de errado são os critérios tanto da tentativa de censura quanto da acusação de censura. Até porque os critérios são o mesmo: o gosto pessoal. Ambas pessoas confundiram seus gostos pessoais com o direito de tentar censurar aquilo que os outros não gostam.
Há dois caminhos para se resolver o problema. O primeiro é deixar as coisas fluírem no ritmo da maioria. Então, hoje temos liberdade a algumas expressões, amanhã não teremos mais. Evidentemente esse caminho gera, para o censurado em um certo momento, a incoerência de não poder lutar pela liberdade da expressão daquilo que ele gosta, visto que ele já tentou (ou irá tentar) censurar aquilo que ele não gosta em algum outro momento.
A segunda alternativa, defendida aqui pelo autor do artigo, é a de liberdade sempre, e censura nunca. Mas e os incomodados? Tem saída para eles: eles não compram os livros, escrevem contra os livros, não participam das exposições etc. O interessante dessa saída é que, quando acontecer o contrário, o incomodado terá plena liberdade de expressão. A mesma, aliás, que ele concedeu para aquilo que ele não gosta.
Assim, no final das contas, não é apenas correto moralmente, mas também um bom negócio defender a liberdade daquilo que não se gosta. Quem defende a liberdade daquilo que não gosta adquire, automaticamente, autoridade para poder, sempre, defender o que não se gosta. Mas não apenas as pessoas ganham com isso: a liberdade ganha também.
MARCOS RODRIGUES DA SILVA é doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


