Todo o Oriente Médio estremece (ou enche-se de esperanças, dependendo do caso) porque o governo de Benjamin Netanyahu acaba de perder seu chanceler, David Levy. Sabemos os motivos da demissão de Levy: um orçamento demasiado austero e o processo de paz cada vez mais estagnado. Mas poderemos avaliar melhor a situação se, a esse quadro, acrescentarmos duas coisas: de um lado, a rivalidade pessoal entre ‘‘Bibi, o americano bonitão’’ e ‘‘David, o marroquino magnífico’’; do outro, a separação brutal que há, na nação israelense, entre os judeus asquenazes (de origem européia oriental) e os sefarditas (de origem mediterrânea).
Bibi e Levy são rivais de longa data. Conhecem-se há mais de 20 anos, pertencem ao mesmo partido, mas se detestam. Aquilo que parecia ser uma reconciliação ocorreu em 1996, quando o Likud, depois do assassinato de Yitzhak Rabin por um terrorista de direita, conseguiu voltar ao poder. Netanyahu formou governo, e Levy (que, pouco antes, tinha deixado o Likud para formar um pequeno partido de direita) tornou-se chanceler, impondo, como ministro da Infra-Estrutura, seu grande amigo Ariel Sharon - do qual se afastaria não muito tempo depois.
Isso quanto ao choque de duas personalidades fortes. Mas há uma rivalidade mais forte por trás disso. Netanyahu vem de uma família da aristocracia asquenazi e fez estudos superiores nos EUA, onde seu pai era professor. Levy nasceu no Marrocos, em 1937, e chegou a Israel aos 20 anos, como pedreiro. Esses dois currículos pintam, de maneira quase caricatural, a história recente de Israel.
Os pioneiros de Israel, os primeiros dirigentes do país independente, de David Ben-Gurion a Golda Meir ou Menachem Beguin, pertenciam à grande massa dos colonos mais antigos, vindos da Europa Oriental. Só mais tarde é que chegaram os judeus do sul. Sentindo-se desprezados ou marginalizados pela elite política asquenazi, a comunidade sefardita aliou-se em massa ao Likud (e, mais recentemente, ao partido de Levy). Mas, hoje, o sefardita de maior destaque no país está rompendo ruidosamente com o governo de Bibi. É verdade que o orçamento preparado por Bibi privilegia os israelenses dos territórios ocupados. A tática é clara: trata-se de criar, nesses territórios, uma situação irreversível, que sufoque definitivamente a autonomia palestina.
Por que é que Levy está tão horrorizado com esse orçamento? Porque não quer, diz ele, que o processo de paz seja prejudicado por um orçamento desses. Mas há outra coisa: se Netanyahu pode dispor de somas tão consideráveis em favor dos colonos dos territórios ocupados, é porque está cortando brutalmente os créditos reservados à integração de multidões de sefarditas nas cidades em desenvolvimento, como as do Deserto do Neguev.
Assim, por trás dessa batalha está outro conflito: a diáspora dos sefarditas contra a dos asquenazes.

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