A despeito
do Ibope e
da torcida
Ayrton Baptista
Os últimos governadores do Paraná e prefeitos de Curitiba sempre estiveram no topo das pesquisas do Datafolha. Assim foi com Alvaro Dias, Roberto Requião e Jaime Lerner, os dois últimos também na prefeitura. Quem acompanha a publicação na ‘‘Folha de S. Paulo’’ sabe que era só esperar que lá apareciam, um após outro, governador e prefeito, sempre no pódio. O Paraná e a sua capital não deixavam por menos.
E agora vem o Datafolha e dá um susto na dupla Lerner-Taniguchi. Um fica com o quinto lugar, outro com o terceiro. Os focalizados e, talvez mais ainda, seus auxiliares, manifestam preocupação. Tanto o governador como o prefeito de Curitiba procuram explicações, que vão de ‘‘um levantamento restrito ao momento’’, aos ‘‘alagamentos e multas’’, estes prejudicando a popularidade de Cassio Taniguchi. Tanto um como outro, mesmo caindo um pouco, ostentam um número idêntico, 6,2, o que, vamos convir, não é de se jogar fora. Muito pelo contrário. Talvez se explique o resmungo porque, como se diz, o uso do cachimbo deixa a boca torta, ou, o hábito faz o monge.
Lerner e Taniguchi, acostumados à preferência absoluta, acham dever explicações. Bobagem. Primeiro, porque estão bem, segundo porque há tempo para uma plena recuperação. Mais por parte de Lerner, que não tem eleição próxima. Já Taniguchi vai enfrentar novamente as urnas no próximo ano e agora, pelo menos de momento, com notícias políticas que devem lhe causar preocupação. São tantos os candidatos à Prefeitura de Curitiba, que eles ameaçam sair pelos partidos que apóiam a situação lernista, que, fato confirmado, o passeio previsto ou a vitória tranquila no primeiro turno já estariam ameaçando a expectativa dos seguidores da dupla Lerner-Taniguchi, Rafael Greca à parte.
De um modo geral, no que tange aos governos estaduais, nota-se uma queda dos governadores reeleitos, Lerner entre eles. Até se entende o fato, que também atinge o presidente Fernando Henrique Cardoso. Não fossem os problemas estaduais e federais, deve-se atentar para uma questão: o eleitor foi às urnas, demonstrou interesse numa permanência do mandatário do seu Estado, mas não teve na sequência a demonstração de coisa nova, o vigor natural de quem toma posse no primeiro mandato. Nota-se, na pesquisa do Datafolha, as posições de Antony Garotinho, Rio, e Esperidião Amim, nosso ilustre e escolado vizinho de Santa Catarina, que, ademais, forma a dupla bem afinada com a mulher Ângela Amim, prefeita de Florianópolis. Embora Amim já tenha um bom currículo, a situação estava tão desastrosa no Estado, que ele foi visto como um salvador e as esperanças de hoje são naturais. Mesmo assim, ocupa o quarto lugar, um posto acima de Lerner.
E é neste particular que o governador do Paraná tem razão ao se referir à ‘‘pesquisa do momento’’. Lerner está ainda no seu inferno astral - sem-terra, pedágio, paralisação de obras, Banestado, enfim, tudo junto. É dose, sobretudo para quem não tem o jogo de cintura do político nascido e batizado.
Sobre o topo nas indicações dos melhores, não sendo marca de produto, creio não se deva dar muita importância às colocações. Parece, isto sim, ao menos para os eleitores aqui da província, que com uma atuação firme, a solução de alguns problemas, o resultado mais visível do recente processo avançado de industrialização, um bom atendimento aos problemas da agropecuária e tudo (passado o inferno astral) promete voltar à normalidade.
Um pouco de otimismo vai bem, mesmo que do terceiro andar do Palácio, em Curitiba, veja-se com tristeza a praça do Centro Cívico cantoneada pelas lonas pretas dos sem-terra.
É enfrentar os problemas, resolvê-los na medida do possível ou encaminhá-los devidamente. O resto é esperar por outros lances, de preferência antevendo obstáculos já que para isso se governa e se cerca de assessores atilados. No mais, é não dar bola para a torcida, como na Arena da Baixada.
- AYRTON BAPTISTA é jornalista em Curitiba

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