A desigualdade se aprofunda
“A desigualdade social vem atingindo, a cada ano, patamares insustentáveis, remetendo para a sarjeta da vida milhões de cidadãos que mostram seu rosto apenas na eleição”
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segunda-feira, 02 de dezembro de 2019
“A desigualdade social vem atingindo, a cada ano, patamares insustentáveis, remetendo para a sarjeta da vida milhões de cidadãos que mostram seu rosto apenas na eleição”
Espaço Aberto 
Não precisaríamos ser leitores do Yuval Harari, para chegarmos a uma conclusão macabra: a desigualdade no mundo e intramuros nos vários países assume não só patamares assustadores, como se torna, aparentemente, irreversível. Os países ricos descolam-se dos congêneres pobres a passos rápidos e a ponte que os separa parece estar com os dias contados. As mudanças climáticas provocando um aumento de 4 a 7 graus na temperatura até 2100, gerando migrações em massa, fome e doenças; a evolução tecnológica posta a serviço dos abastados, somada aos desmandos econômicos e políticos locais, do lado mais atrasado, tem como consequência esse afastamento veloz, criando dois mundos assustadoramente diversos.
Não nos surpreenderá com certeza numa viagem à Escandinávia, o uso deste ou daquele aparelho de telefonia que eventualmente ainda não seria usado deste lado – o que é quase impossível! O que nos deixa estupefatos é a vida em si, dos habitantes desses países nórdicos; para dar apenas um exemplo. A integração bem-estar social - que implica saúde, habitação, empregos e mobilidade urbana por exemplo - com o sistema educacional, que envolve novas formas de ensino, valorização dos professores e horários, é per si reveladora do que estou tentando mostrar. Vivem esses países mais desenvolvidos sob a égide de uma agenda que há décadas deixou para trás o que para tantos outros do terceiro e quarto mundo se constitui numa labuta diária, repleta de avanços e atrasos, como se de um carro patinando na lama se tratasse. Um brasileiro que viva um ano no Canadá, dar-se-á conta de que os anseios e debates naquele país estão anos luzes distantes dos nossos e que as demandas dos canadenses, embora aparentemente semelhantes a todo o ser humano, são um idioma incompreensível para quem vive deste lado. É oportuna a velha anedota dos três cachorros: um latia para conseguir um bife; o segundo perguntou o que era um bife e o terceiro perguntou o que era latir! Assim caminha o mundo neste século XXI, deixando para trás os países pobres, que como bem nos lembra o autor citado, não conseguirão mais - costurando roupa de marca ou caprichando nos telemarketings – alcançar os primos ricos; e a ponte será definitivamente retirada! Foi constrangedor perceber como a reunião dos Brics (apesar da presença da China) passou desapercebida no hemisfério norte!
Mas se tudo isto é verdade num panorama global, a nível interno, a desgraça é semelhante ou pior. A desigualdade social vem atingindo, a cada ano, patamares insustentáveis, remetendo para a sarjeta da vida milhões de cidadãos que mostram seu rosto apenas na eleição (obrigatória) em que, por motivos óbvios, ajudarão a perpetuar o sistema. Países pobres voltados sobre si mesmos, parindo um índice cada vez maior de milionários e construindo muros inacessíveis e fossos intransponíveis. A discrepância salarial do público para o privado, já denunciada aqui noutra oportunidade, está gerando castas e países dentro do mesmo país! Também as pontes que sempre foram a base de uma esperança de dias melhores tendem a ser demolidas, gerando irremediavelmente dois lados que se oporão permanentemente, num viés de desconfiança e insegurança. Malgrado isso possa ser considerado tão natural quanto a organização da própria sociedade, não vejo atitudes que pudessem no mínimo atenuar o flagelo que nos persegue. Se somarmos ao desemprego, o subemprego, a informalidade e as profissões que vão sair de cena nos próximos anos, o quadro nos países pobres é deveras assustador.
Mas o ser humano é capaz de fazer o improvável. Mudanças conceituais radicais no que tange à política de migrações, desarmamento e solidariedade entre os povos, bem como internamente coragem de reformas administrativas e políticas que gerassem uma equidade e harmonia salarial com programas eficientes de integração e emancipação das classes desfavorecidas, acenderiam a luz verde da esperança. Isso seria Natal!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos - Arquidiocese de Londrina


