A descrença e o desespero - Rubem Azevedo Lima
A descrença e o desespero
Chegou-se ao exagero de considerar tal iniciativa, promovida e organizada pelos partidos de oposição, uma tentativa de golpe contra o governo, pois os manifestantes pediram o impeachment do presidente.
Tais acusações partiram, principalmente, de políticos e autoridades governamentais. Muitos deles defenderam, em 1992, o impeachment do presidente Fernando Collor. Imagine se toda essa gente que fez tal pedido, àquela época, fosse considerada golpista! Fernando Henrique, hoje a vidraça contra a qual as oposições atiram pedras, era, naquele episódio, um dos estilingues da comissão de parlamentares que coordenava a proposta de impedimento do então chefe de governo.
Quem circulou pela Esplanada em que se concluía a marcha pôde sentir, nitidamente, o ânimo dos manifestantes. Todos, ou quase todos eram pessoas vexadas por não terem trabalho nem a menor perspectiva de virem a trabalhar. Em entrevista, o presidente da República disse que o índice de desemprego afinal se estabilizara e a porcentagem de desempregados caíra de 7,8% para 7,5%, entre junho e julho últimos.
Evidentemente, as estatísticas não são de FHC. Elas devem ter-lhe sido fornecidas pelos marqueteiros do governo, gente especializada em produzir futuro cor-de-rosa, quando o presente é sombrio e cinzento. O presidente apresentou-se, na televisão, com outras jóias dessa fábrica de horizontes de otimismo que não se confirmam. Uma delas, ao contrário das previsões do FMI, prometia ao País um piso de crescimento de 4%, no ano 2000, que pode, portanto, ser até maior. Outra pérola garantia que os juros finais, hoje injustificavelmente altos, para as pessoas físicas vão ter de baixar.
Sucede, no tocante ao desemprego, que os índices não caíram no período citado, pois não se criou um só novo posto de trabalho no Brasil. Caiu, sim, o número dos que procuravam trabalho e, cansados, pararam de percorrer, inutilmente, agências de emprego que exploram os desempregados, cobrando-lhes taxas para se inscreverem nas listas dos sem-trabalho.
Por mais que se contivessem e se portassem corretamente, percebia-se latejar, nos milhares de brasileiros que foram à marcha, a mistura de dois sentimentos socialmente explosivos. O rancor de um povo à beira do desespero e a agravante de não se dar mais credibilidade a quem deveria resolver seus problemas e repete estatísticas distorcidas: o governo do presidente FHC.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





