Na crônica escandalosa da vida pública brasileira são flagrantes algumas verdades históricas. Uma delas o denuncismo oportunista, partindo de alguém, do meio, que foi afastado de algum cargo ou deixou de usufruir de benefícios fraudulentos. Outra, a tradição de corrupção nos negócios dos governos, desde as minúsculas prefeituras dos rincões da pátria até o cargo máximo da República, agora e em todos os tempos. A corrupção e o ‘jeitinho’ foram ensinados aos brasileiros pelos representantes ‘de confiança’ da Coroa, no Brasil Império – que trapaceavam o Rei no além-mar – e desde então ficaram incorporados aos nefastos costumes do poder público. A denúncia bombástica estampada em todos os jornais de ontem, envolvendo o ministro petista Antonio Palocci na acusação de que, quando prefeito de Ribeirão Preto, recebia propinas de empreiteira que tinha negócios com a Prefeitura, cria uma situação inquietante, por envolver o homem mais importante do Governo Lula e que até agora desfilava inatingido ante tanto bombardeio de denúncias. Se o pagamento que recebia – a ser verdadeira a denúncia de seu ex-Secretário Rogério Buratti – ocorreu em outra circunstância da carreira pública de Palocci, a acusação é grave por colocar sob suspeita a lisura moral de tão importante figura do atual Governo. Porque a opinião pública passa a imaginar que, se alguém comete um ato de improbidade, é capaz de cometer outros mais. E um ministro que está por trás da Pasta da Fazenda, com os poderes que enfeixa – maiores que os do Presidente quando têm a ver com decisões de política econômica – torna-se mais visível e mais vulnerável. Com ou sem provas – porque Buratti (recentemente preso por suspeita de lavagem de dinheiro) fala como beneficiário da denominada ‘delação premiada’ – Palocci não ficará confortável no cargo que ocupa, porque os focos ficarão centrados também em sua direção, e eventualmente ele tenha de renunciar. Mais um pouco e só ficará Lula, e não faltam os que desejam o seu ‘impeachment’. A oposição afirma que isto ‘é a desgraça final’, mas este é também um enfoque de oportunismo, porque os partidos já vivem em clima pré-eleitoral, que se reacendeu ultimamente face à envolvência do PT e de seus homens-chave em denúncias de corrupção. Certo é que, se a delicada situação abala os alicerces da estabilidade nacional, não os derrubará, porque as bases da produção – e, por extensão, da economia – são suficientemente estáveis para suportar mais uma troca de ministro e, a bem da verdade, inclusive a troca de Presidente.

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