A denúncia sobre lavagem de dinheiro da loteria
Merece no mínimo uma investigação a denúncia do senador Alvaro Dias de que as loterias da Caixa Econômica Federal estariam sendo usadas para trocar dinheiro do narcotráfico ou do crime organizado. Munido de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, ele revelou na tribuna do Senado casos como o de um certo Aécio Gouveira que recebeu 525 prêmios, no valor de R$ 3,8 milhões, e de 75 outros ganhadores suspeitos. Entre estes o doleiro Antonio Oliveira Clarimund (o Toninho Barcelona), que é prisioneiro sob a acusação de formação de quadrilha no âmbito do crime organizado.
Outro ganhador, alvo de cinco inquéritos por receptação, estelionato e crime contra a saúde pública, é Anselmo Xavier Rolim, premiado com R$ 431 mil em loterias. Alvaro cita outros ganhadores e o conhecido caso do deputado federal João Alves, um dos ''anões do orçamento'' e que ganhou centenas de vezes na loteria. Uma prática conhecida - para o fim de lavagem de dinheiro - é pessoas interessadas e com suficiente capital serem informadas antecipadamente e adquirirem bilhete premiado de ganhador particular, pagando-lhe valor mais alto que o do prêmio. Dessa forma, justificam ao Fisco a procedência de suas rendas. Este último caso é complexo, porque nem a Caixa e nenhum outro organismo policiador pode controlar isso.
Mas o senador também aponta o dedo para essa instituição oficial, afirmando que a lavagem pode ser possível ''com a participação de um gerente e outros agentes da Caixa''. Segundo o seu demonstrativo, ''um funcionário se encarregaria de segurar bilhetes vencedores e não vendidos e os passaria ao beneficiário da lavagem'', dessa forma roubando a própria Caixa. A denúncia dos bilhetes premiados retidos e revertidos em benefício de grupos, dentro do sistema, não é nova. Ouvia-se muito a respeito, no passado, inclusive com relação à extinta loterial estadual do Paraná. Pessoas vinculadas ao controle do setor eram acusadas de auferir os prêmios de bilhetes premiados e não vendidos. Essas denúncias se perderam no vazio, até porque seus personagens centrais (nunca citados nem investigados) já morreram e a loteria não mais existe.
Em resposta às denúncias do senador Alvaro Dias, a Caixa Econômica declara que, em ação conjunta com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras e a Polícia Federal, tem descredenciado as unidades lotéricas envolvidas em irregularidades. Estranha que um sistema monitorado por computador e em rede possibilite irregularidades em casas lotéricas, ao menos quanto à possibilidade de elas virem a beneficiar alguém com prêmio. Se falcatruas existem, seriam aquelas citadas (a compra de bilhete premiado e a manipulação de bilhetes contemplados e não vendidos). Presume-se que o senador se refira à loteria por bilhetes e não as lotos, porque neste último caso, se denúncia houver, seria de a Caixa ter controle sobre os movimentos das ''rodas da fortuna'' e selecionar os números premiados, talvez como forma de não permitir de imediato um ganhador, retendo dinheiro e acumulando o valor do prêmio, para assim atrair mais apostadores e robustecer o volume da receita.





