Freeport, Illinois (EUA), é uma cidadezinha pequena, porém decente. É do tamanho de Uiraúna, no sertão do Rio do Peixe, de onde fui vindo, como revelei num verso do poema ‘‘Na casa avoenga’’. Mas a semelhança pára por aí. Passei por lá no inverno e a impressão que ficou foi a de que ali dificilmente haveria verão - pelo menos um verão comparável a este que estamos vivendo, muito menos àqueles dias pesados, de intensa luminosidade e de um calor que os jornalistas de antigamente definiram como ‘‘senegalês’’, como são praticamente todos os dias no interior da Paraíba.
Pólo importante da produção de laticínios do Estado americano cuja cidade mais importante é Chicago, Freeport dispõe de um hotel bem razoável, muito melhor que a Pensão de Jeremias de minha infância. Ali pelas vésperas da posse de Fernando Collor, cá nos trópicos, esse hotel oferecia a seus hóspedes uma ampla variedade de canais por assinatura da TV a cabo. Um desses canais transmitia ao vivo, diretamente de Londres, as sessões da Câmara dos Comuns. A princípio, a idéia poderia parecer bizarra. Mas, como já havia perguntado Caetano Veloso em sua canção mais famosa, por que não? Ora, afinal de contas, ali repousavam as raízes da mais antiga democracia do mundo, de certa forma também as sementes de todos os regimes democráticos, inclusive o resultante da Revolução Americana.
Depois de ler essas palavras meio pomposas, é possível ter sido transmitida ao leitor a falsa impressão de que as sessões da Câmara dos Comuns são difíceis de suportar, de uma chatice capaz de defini-las como uma espécie de purgante televisivo. Essa é, no mínimo, a primeira expectativa de quem tenha sintonizado o canal. Até porque seu presidente (o speaker of the house) usa uma ridícula peruca empoada e empunha um martelo.
No caso do telespectador brasileiro, habituado pelos costumes políticos próprios a confundir prática democrática com um jardim todo plantado de flores da retórica, a expectativa mais comum é a do bocejo. Mas qual o quê! Lembra-se dos improvisos de Ronald Golias contracenando com Jô Soares na Família Trapo? Ainda tem presentes os gols narrados pelo bêbado João Canabrava, com que Tom Cavalcanti estreou no programa de Chico Anísio? Sabe o inglês enrolado de Miguel Falabela em Sai de Baixo? Pois as sessões da Câmara dos Comuns são muito mais engraçadas.
Para quem nunca teve a idéia de acompanhar essas sessões ao vivo, mas teve a oportunidade de assisti-las pela televisão, aquela sala comprida, em que o governo e a oposição se combatem com ferocidade, mas também com senso de humor, permite a descoberta da felicidade democrática. Como na vida real das pessoas que votam e são votadas, os Parlamentos refletem os dramas do cotidiano, mas também espelham as graças do dia-a-dia.
É muito recente a implantação da televisão a cabo no Brasil, mas, felizmente, ela já desembarcou com um canal que transmite as sessões do Senado Federal. Espectador, por força de circunstâncias profissionais, dessas sessões, há muito tempo, considero feliz a iniciativa do jornalista Fernando César Mesquita, que convenceu o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), a realizar no Brasil a idéia, que, como a democracia representativa, os britânicos venderam para o mundo. Não é lícito esperar que a programação de nossa TV Senado tenha a mesma graça das sessões da Câmara dos Comuns. Mas também não creio que a proposta seja substituir a Praça da Alegria ou concorrer com as piadas que Max Nunes cria para Jô Soares Onze e Meia. A idéia - pelo que pude entender - é apenas tornar possível o acesso do cidadão às discussões da chamada Câmara Alta, sem a necessidade de se embrenhar pelo Sertão de Góias para chegar às galerias do Congresso.
Com todo o respeito às críticas feitas, seja à iniciativa, seja ao teor da programação, creio que a democracia será mais representativa na medida em que conseguir colocar ao alcance do controle remoto dos televisores dos representados o que seus representantes andam fazendo. Isso, evidentemente, custará sempre algum dinheiro. Mas o desconhecimento do grande público a respeito do que se passa na sala de sessões do Parlamento custaria muito mais caro às instituições e ao desprotegido bolso do cidadão brasileiro.
Também não deixa de ser louvável a iniciativa do presidente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, Ricardo Tripoli, de seguir a mesma trilha, entregando a tarefa de produzir a programação a um profissional do ramo, o baiano Fernando Coelho. Como o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Nelo Rodolfo, já anunciou estar atento ao assunto, chegou a hora de sugerir que a TV Senado vire uma TV Congresso, transmitindo também as sessões da Câmara dos Deputados.
E, já que a política pode ser viva e bem-humorada, deputados e senadores deveriam nos livrar da obrigação - esta, sim, desagradável e autoritária - de ter de acompanhar pelo rádio as atividades do legislativo na Voz do Brasil, entulho do Estado Novo do qual ainda não conseguimos nos livrar. Com a possibilidade de se reletir no espelho eletrônico da televisão, a democracia não precisa mais se impor pela chatice.

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