A democracia do pensamento único - Rodrigo Antunes da Silva
A democracia do pensamento
único
Rodrigo Antunes da Silva
Não vamos aqui polemizar aportes teóricos, títulos, muito menos minha idade. Então partamos para o essencial, o debate das diferentes visões de mundo e suas finalidades. Ao contrário do que disse a professora Maria Lucia Victor Barbosa, o artigo MST, inimigo Nº 1 da democracia (publicado na Folha no último dia 13) chama muito mais a atenção pelo seu conteúdo do que pelo seu título, mesmo que no título já se encontrem os elementos que definiriam sua abordagem. Quanto ao conteúdo, ele é carregado da interessada defesa do pensamento único, pensamento esse tão presente em nosso cotidiano.
O teimoso exercício da liberdade de expressão e da democracia, é realmente penoso, porém jamais deve ser unilateral ou profetizador, ou ainda, impor certos ideais e visões de mundo, que impregnam nossas vidas, e todas nossas atividades, desde a educação. Por falar em educação, onde estará perdida a real tarefa dos educadores? Será que o papel dos que se destinam à nobre tarefa de educar, é o enfrentamento e a ironia?
Entendo que a democracia deva ser o espaço de debates para a construção de novas perspectivas, e não o espaço das imposições do pensamento único, que insisto, defende interesses de classe, como Marx dizia, a classe que domina materialmente tem por necessidade dominar espiritualmente os indivíduos.
A sociologia se infectou com tal visão? Falar em classes sociais, em rupturas, em transformação, em embate saiu de moda no meio acadêmico. Devemos nos acomodar e ver o mundo como nos obrigam? Estão em pauta na atualidade, análises dicotomizadas que impossibilitam a compreensão do real, portanto inviabilizam também sua transformação.
Separar o político do econômico emperra a quebra dos paradigmas. Não há como entender a prática social, desmembrando o que as fundam, ou seja, a economia política do modo-de-produção capitalista. É por isso, portanto, que as velhas e ultrapassadas análises marxistas, estão vivas até hoje, desmistificando as práticas sociais amplamente fetichizadas e distorcidas.
As diversas teorias formuladas em torno da democracia, demonstraram e continuam a demonstrar suas barreiras intransponíveis, impostas pelos limites das desigualdades entre os homens, pois tais teorias, de certa forma, legitimam esta afirmativa errônea. Ou seja, as teorias desenvolvidas sobre a democracia, desde Aristóteles e Platão a Maquiavel, expressam a convivência desigual entre os homens, uns têm direitos, outros só deveres. Ainda na Grécia Antiga, berço da democracia, já se encontravam esses limites, pois certos indivíduos não eram considerados cidadãos, portanto não participavam das decisões. Daí mais uma brilhante constatação de Marx, de que a história da humanidade foi e tem sido a história da luta de classes.
Muitas outras foram as teorias para a formulação do regime democrático, porém, elas estão presas aos limites da classe dominante. Ou seja, os homens não se libertaram da religião, tiveram a liberdade religiosa, não se libertaram das condições sociais que os oprimem, tiveram as liberdades aprisionadas, subordinadas às estruturas de classe.
Portanto, a ilustre futura colega de profissão não deveria ser tão taxativa em suas colocações que depreciam uma visão de mundo que tem como finalidade a construção de seres comuns emancipados, não havendo, portanto, nenhuma vulgaridade, mas que afeta intimamente as raízes do pensamento burguês.
Com a profundidade de um poço, a vulgaridade mencionada pela senhora Maria Lucia Victor Barbosa ou seja o marxismo tão fora de moda, no meio acadêmico na atualidade promove a análise da realidade concreta, e sempre causa temores e aversões, pois toca no fundo do vespeiro da doença senil neoliberal.
- RODRIGO ANTUNES DA SILVA é acadêmico de Ciências Sociais em universidade de Londrina





