A democracia representativa está em crise. Isso não é novidade. Como a palavra crise é usada para denotar problemas maiores e menores, torna-se difícil perceber o sentido em que é empregada. A crise da democracia representativa se relaciona às dificuldades geradas por sua operação no campo político. O filósofo italiano Norberto Bobbio prefere acentuar as promessas não cumpridas pela democracia, como a educação e a justiça para todos, a vitória da moral e da ética sobre a corrupção, a distribuição igualitária de renda. Expostos os contornos da crise, surge a pergunta: e qual é a resposta que a sociedade está dando para os compromissos não realizados pela democracia?
Entre as respostas, uma parece ser muito significativa. Ao buscar mecanismos de defesa, um manto protetor contra as mazelas que a democracia representativa não conseguiu extirpar, a sociedade passa a eleger novas formas de representação. Os grupamentos sociais alinham seus interesses, integram-se em ideários, uns mais genéricos, outros mais específicos, formam entidades, fazem pressão e, de forma encadeada, acionam mecanismos que acabam promovendo a substituição das formas tradicionais de representação política.
Nascem, assim, as organizações não-governamentais, as associações com raiz na micropolítica, a política das pequenas causas, do combate aos problemas da rua, do bairro, das regiões, dos grupos, das categorias profissionais. Esse universo organizativo procura suprir as deficiências da democracia representativa, investindo-se de certas atribuições da democracia direta, a que a humanidade inicialmente passou a conhecer no berço da ágora, a praça central de Atenas, onde se reunia a Assembléia do Povo, que debatia de maneira direta as questões da cidade.
Eis aqui o paradoxo da sociedade global. Quanto mais homogênea nos comportamentos, nas atitudes e nos gostos, quanto mais integrada a um pensamento global, mais tribal se transforma, pela tendência de as populações exigirem receitas pontuais para suas demandas específicas. A monumental capilaridade produzida pela tuba de ressonância da mídia mundial não é capaz de remover a identidade dos microambientes, da cor local, das culturas regionais.
Essa é outra explicação para a explosão das entidades intermediárias. A fé, por exemplo, encastela-se na crença de grupos religiosos, que, multifacetados, se espalham como ondas na areia, gerando correntes místicas de Luís Gomes (RN) a Alegrete (RS), de Uiramatã (RR) a Uiraúna (PB), de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, a Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro. As ondas místicas funcionam como uma fortaleza de proteção da sociedade contra a invasão dos bárbaros, aqui representados pela corrupção, por desmandos administrativos de governantes, pela incúria de juízes, pela inépcia das casas parlamentares, pelos feudos familiares e pelo clima de emboscadas que caracteriza a vida pública em nosso País.
A imagem pode ser forte, mas o conceito tem a sua lógica: os cidadãos mais humildes refugiam-se na fé para criar pequenos espaços de luz, céus diáfanos dentro de uma terra castigada pela ruindade, essas coisas pavorosas que o poeta popular Enéias Tavares Santos viu chegarem no inferno, enviada pelo cantor Roberto Carlos, por meio da música ‘‘E que tudo o mais vá pro inferno’’: ‘‘Homem que bate em mulher, motoristas mão grossa que andam na contramão, balconista que na loja só mede esticando o pano, batedor de carteira, ladrão de galinha e outros tantos, filhos desobedientes que não respeitam os pais, soldados que na feira aborrecem o folheteiro, moça que vai para a rua à noite depois da janta, poeta plagiador, homem de duas mulheres, dono de sorveteria que pega um maracujá pra fazer 10 litros de refresco, açougueiro que vende carne sem osso ao rico e com osso puro ao pobre, viúva de poucos meses que anda toda pintada, camelô de calçada, carregador chapeado, doutor que não examina as doenças do cliente, ourives que vende ferro aos tabaréus enganando etc etc.’’
Há uma democracia da fé em plena efervescência no País. Ela ampara, inspira, exalta, eleva, anima e oxigena os pulmões da espiritualidade do nosso povo. Quanto maior a descrença na política e nas instituições tradicionais, maior a crença na força mística. É a indeclinável missão do ser humano em seu rito de passagem: buscar um cantinho de paz e felicidade para afastar a tormenta da vida.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e consultor político
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