A demagogia dos dois Brasis
A demagogia
dos dois
Brasis
Nesta semana, quando as bolsas de valores despencaram novamente e a Rússia surgiu como o vilão de outra grande crise econômica internacional, o metrô funcionou normalmente em São Paulo. Milhões de pessoas foram e voltaram do trabalho na completa ignorância sobre o tamanho da taxa de juros em Moscou.
Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso deu a entrevista coletiva no gramado do Palácio da Alvorada, usando um terno claro como a manhã de Brasília e abusando do estilo Clinton de ser, havia filas nos hospitais.
Muita gente madrugou naquele dia para conseguir atendimento médico no posto de saúde e nem teve tempo de ver na televisão a cena bucólica do Alvorada, com seus repórteres bem-vestidos e educados. Parecia coisa de cinema. Já se disse mais de uma vez que existem dois Brasis: o dos pobres e o dos ricos. A diferença entre um e outro parece-me muito mais profunda do que a simples contabilidade das posses de um e outro Brasil. A dicotomia está explícita nas cenas da semana passada.
De um lado o Brasil que faz e, de outro, aquele que vive o que o primeiro projetou. É fácil para os teóricos da economia lembrarem que o mundo hoje é globalizado e o que acontece na Rússia repercute no Brasil. Seria algo tão natural quanto uma chuva forte que caísse na cabeceira do rio Tietê e inundasse São Paulo. Ninguém vê a chuva em São Paulo, só a enchente. Esses teóricos discorrem sobre os fenômenos econômicos como se o trabalhador do metrô, que não tem a menor idéia de onde fica a Rússia, fosse um idiota.
Na entrevista do Alvorada, ocorreu algo semelhante. O presidente da República tratou o outro Brasil como gente que não tem a menor idéia do que o seu governo está fazendo. Gente desinformada, manipulada por grupos com interesses políticos e eleitorais. Os repórteres, polidos e educados, capricharam no português e se esmeraram em fazer perguntas inteligentes e agressivas ao presidente. Sobre economia, então, as perguntas eram coisa de especialista. Estavam todos ali resolvendo o futuro do país.
Nos dois momentos, os protagonistas comportaram-se como se não fizessem parte do Brasil que vive. Quando os economistas dão os seus palpites sobre o destino da globalização, falam como se estivessem no mundo da Lua, observando de longe. É fácil defender um novo ajuste fiscal, quando os custos das medidas recaem sobre o outro Brasil, aquele que paga um novo reajuste na alíquota do Imposto de Renda ou perde o emprego em consequência da retração na economia. A crise, parece, nunca é com eles.
Essa atitude é a mesma dos defensores do uso da bomba atômica como instrumento de manutenção da paz internacional. Quem defende seu uso acredita que nunca estará no lugar onde a bomba será detonada, nem seus filhos, nem outros parentes. A bomba atômica é para os outros. Uma artimanha de autopreservação para nunca se colocar no lugar dos mortos e feridos.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





