A necessidade de trabalho e renda, num país com grande número de desempregados, leva à prática do que o gracejo popular denomina ''comércio exterior'', que é a atividade dos sacoleiros que operam no eixo Paraguai-Brasil. Um comércio que se estende por outros tantos pontos da enorme faixa de fronteira com os demais países vizinhos. Por esses portais entra tudo, sendo as drogas e as armas as mais perigosas mercadorias. A fiscalização rigorosa é necessária, mas é certo que os que trazem bugigangas em volume de sacolas têm baixo grau de nocividade. Tal é um recurso de vida, e aquilo que causa de prejuízo, de um lado, proporciona de ganho em outro, pelo mérito de garantir a sobrevivência de muitos brasileiros e suas famílias. Assim, o custo social equilibra-se e, face ao elevado superávit da balança comercial, a caravana do vai-e-vem desses formiguinhas não chega a constituir um problema. Mas a revolta dos sacoleiros da última quinta-feira, com o ateamento de fogo em quatro ônibus transportando compras do Paraguai, foi um ato de vandalismo, com mescla de terrorismo, o que não pode ser aceito. Isto, ademais, poderá tender a uma diminuição da tolerância das autoridades com esse comércio permitido até 300 dólares por pessoa prejudicando os próprios sacoleiros. Essa ação violenta foi motivada, ao que eles afirmam, pelo rigor excessivo da Receita Federal, algo que ocorre num momento delicado da vida nacional, porque tanta denúncia de desvio de dinheiro público não granjeia muita simpatia para mais fiscalização e arrochos de ordem tributária. Naturalmente que a Receita age conforme a sua prerrogativa legal, que é conter o contrabando e salvar o Tesouro e os contribuintes estabelecidos. A situação é delicada porque, se a atividade dos sacoleiros é um expediente de salvação de ganhos, assiste-se ao contrabando pesado, que circula camuflado ou nem tanto, e cujas cargas não são aparelhinhos eletrônicos e relógios de quinta linha, mas mercadorias de muito mais valor, entre elas drogas e armamentos. Há que abrandar de um lado e endurecer de outro. Ou seja, proteger o limite da permissão regular e bater pesado no contrabando em escala. Esse universo de negócios, pela sua natureza, propicia males e vícios afins, como o assalto a ônibus e as revelações que, vez ou outra, afloram, de que agentes cobram propinas para liberar as mercadorias, seja em pequeno como em grande volume. Como, mesmo que todos os exércitos sejam mobilizados, jamais se conseguirá o comércio irregular via fronteiras, será preciso uma política inteligente de convivência com o comércio legal e controlado eventualmente com alguma margem de flexibilidade porém sem perdão para o contrabando de grosso volume e a entrada de drogas e armas. Uma ação em que deve empenhar-se não apenas a Receita mas o Exército, porque tem a ver com a segurança nacional. Com o referendo de outubro, que, com certeza, dirá não à venda de armas aos cidadãos, o comércio clandestino desses artefatos via contrabando poderá intensificar-se, e a vigilância terá de ser mais agressiva. Quanto à necessidade de frear a entradas das drogas, nem será preciso enfatizar, porque isto requererá uma verdadeira ação de guerra.

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