A delicada questão da educação sexual
Em assunto tão polêmico - o sexo, abordado em reportagem de domingo neste Jornal - as opiniões naturalmente divergem, mas pode-se afirmar com segurança que apenas a distribuição de preservativos masculinos aos escolares adolescentes, por via de máquinas automáticas nas escolas públicas, é apenas um dos ingredientes para evitar os problemas gerados pelo sexo nessa idade. Porque o fundamental é romper as barreiras do moralismo, ainda acentuado nas famílias, e dizer a esses jovens todas as verdades sobre o sexo, sem ocultar seus valores e consequências.
Apenas facilitar a distribuição de preservativos por esse meio mecânico não toca no fundo da questão, que é a conscientização dos adolescentes. O sexo já é problemático para um grande número de adultos, e num ambiente assim, ademais com a falta de desenvoltura de pais e filhos menores para discutir esse tabu, os caminhos e entraves da educação sexual são muitos e envolvem costumes familiares, religião, saúde pública. Na extremidade desta linha está a gravidez não planejada. Pode-se afirmar que houve uma popularização acentuada da prática sexual a partir da revolução cultural deflagrada em 1969 e que promoveu mudanças estéticas e comportamentais, liberando inclusive a manifestação e o exercício da sexualidade entre os jovens.
A questão das máquinas alerta estudiosos sobre um possível estímulo à iniciação sexual antes do tempo. Porque um tal dispositivo deve vir na caudal de um projeto pedagógico pertinente. Se os adolescentes são mais tímidos para buscar resposta com os pais, encontram mais facilidade com os professores, então pesa sobre a escola uma nova atribuição, além daquela de alfabetizar. Muito tempo de moralismo pregado nos púlpitos e refletido no seio familiar foi criando barreiras ao diálogo entre pais e filhos, e uma volta ao passado remeterá para o culto do silêncio sobre o sexo, algo apenas levemente discutido entre mães e filhas em vésperas de casamento. Quanto aos rapazes, estes não recebiam nenhuma orientação dos pais.
Esses tempos não estão muito distantes, por isso a discussão aberta sobre o tema mal começa. Já houve grande progresso, ao menos quanto à prática sexual, embora não muito quanto aos cuidados e implicações. O advento da Aids veio mostrar que a fonte da vida pode ser também um portal para a morte, porque essa doença ainda incurável veio avassaladora. O sexo, se é uma questão de sáude, é sobretudo de educação e envolve não necessariamente medidas governamentais disciplinadoras mas ensino inteligente - do qual devem participar adolescentes, pais e educadores.
Verdade também que grande número de inexperientes jovens têm o dom de encontrar-se e dar-se bem nos primeiros experimentos com o sexo e na continuidade, não necessitando de aprendizado algum. Mas se é necessário ensinar, pouquíssimas escolas abordam o assunto de forma profunda, até porque há pais que não desejam esse ensinamento aos seus filhos. Esta é uma disciplina ainda não consolidada, até pela escassez de instrutores reconhecidamente competentes. Não por acaso o sexo é a mais delicada questão no relacionamento entre casais, pelas suas múltiplas variáves, e tem a ver com a própria razão da vida.





