Apesar de tudo, as eleições não deixaram de ser pedagógicas. Ensinaram várias lições e reprovaram vários governantes. Mostraram que não se pode ser arrogante com as urnas, porque aí os deuses da política ficam enfurecidos e descarregam seus raios malévolos contra os ímpios.
Talvez seja isso o que aconteceu com uma maneira, um estilo de fazer política, que a partir dessas eleições vai começando a ficar fora de moda por absoluta falta de relação com os fatos. É o ‘‘marquetismo’’ empedernido que vai perdendo a sua força.
Aqueles gênios que transformaram até agora os candidatos em messias de calças curtas, se não têm motivos para tremer, devem estar bem preocupados. O tempo dessa gente está terminando. A mágica não funciona mais, perdeu a graça. O eleitor não acredita mais que a vitória de determinado candidato possa transformar sua cidade, seu Estado, seu País, em sucursal do paraíso.
Talvez nós estejamos chegando ao final desses tempos. E essa história tem um personagem principal: o publicitário Duda Mendonça. Figura simpática, inteligente, criativa, mas que cometeu um grave e sério pecado. Imaginou que política é um artigo vendável como qualquer outro - comida para cachorro, absorvente feminino, creme contra a flacidez.
Duda Mendonça é a síntese de toda uma escola que pensa que basta uma fórmula e uma série de regrinhas para transformar um candidato em vencedor. O truque funcionou por um tempo. Mas parece que essas eleições foram o limite. Os marqueteiros não souberam cuidar da sua galinha dos ovos de ouro. Exageraram, montaram supermercados eleitorais com direito até a ‘‘franchising’’ e entrega a domicílio. Aí as coisas começaram a degringolar.
O principal fazedor de sonhos eleitorais montou lojinhas eleitorais por todo o País. Teve de fechar as portas no primeiro turno no Rio de Janeiro e em Pernambuco. Mesmo assim ainda se deu bem. Seus consumidores Garibaldi Alvez, no Rio Grande do Norte; José Maranhão, na Paraíba; Dante de Oliveira, no Mato Grosso; e Jorge Viana, no Acre, venceram no primeiro turno.
A Rede Duda Mendonça Armarinhos Eleitorais funcionou ainda para o segundo turno em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás e Brasília. Só que não importa mais o seu número de vitórias nesses estados. A maioria dessas campanhas entrou em rota de colisão com os próprios políticos que se rebelaram com as vitrines todas impecáveis, todas bonitinhas que foram montadas para vender o produto.
Em São Paulo e Rio Grande do Sul, os próprios candidatos se revoltaram pela forma como estavam sendo embalados e fizeram intervenções brancas em cima da turma de Duda Mendonça. Em São Paulo, Maluf contra Mário Covas, mas Duda Mendonça insistia em mostrar imagens bonitas e falar em programa de governo enquanto o candidato da oposição dizia que Maluf era ladrão.
No Rio Grande do Sul, Antônio Brito tomou para si a incumbência de escrever textos que antes eram feitos pela equipe de Duda Mendonça. Situação vexatória para quem pensa ser o grande artista do gênero.
Mas isso são detalhes. O importante é que os candidatos de Duda ficaram em desvantagem nas pesquisas. O supermercado eleitoral não está mais atraindo a freguesia. Os marqueteiros vão ter de procurar um outro ninho, vão ter de trocar de ramo. Isso porque cansou de fazer gracinhas na televisão. O público quer ver soco no fígado e no queixo.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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