A cultura japonesa - André C. de Araújo Moreira
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de julho de 1998
André C. de Araújo Moreira 
Consta que os paulistas ficaram descontentes porque não sediaram os festejos dos 90 anos da imigração japonesa para o Brasil, em junho. Até indignaram-se porque a grande festa-apoteose da comunidade de 1,3 milhão de pessoas no País foi realizada numa cidadezinha quase desconhecida do Paraná, chamada Rolândia. Mas há razão para isso.
Foi lá pelos idos de 1941 que tive meu primeiro contato com a cultura japonesa, através do jiu-jitsu. Meu sensei exigia que os fundamentos morais de honestidade, determinação, dedicação e lealdade, fossem atributos insubstituíveis. A vitória só tinha mérito com honra. Dediquei-me a fundo àqueles ensinamentos e fui campeão mineiro de jiu-jitsu.
Procurava assimilar mais do espírito puro que emana desta luta-arte, quando caiu-me nas mãos um livro sobre a formação do espírito e da mentalidade do povo japonês. O livro chamava-se Os três bambus, e traduzia o substrato da mentalidade que deveria conduzir à formação do novo Japão pelo advento da era Meiji (1868-1912).
Antes o Japão era constituído por grandes feudos, dos samurais, dos senhores de tudo e de todos. O Imperador Meiji, que tomou posse ainda jovem (14 anos) e governou por 44 anos, fez mudanças tendo a sabedoria de não modificar o espírito, as tradições, e a herança ancestral ditada pelos mestres através da formação zen-budista.
No livro, o espírito japonês é sintetizado através de uma família na qual o Ancião pregava aos filhos e netos a humildade, o trabalho, a perseverança, o equilíbrio, a determinação, segundo uma visão moderna de melhoria de vida pela valorização do comércio exterior. Era a visão de um Japão novo, voltado para o futuro.
Perguntado ao Ancião por que ele escolhera para símbolo da família três bambus em vez do carvalho, árvore mais protetora, madeira nobre, ele singelamente respondeu que o fizera porque se caísse uma grande tormenta, muito provavelmente o carvalho seria arrancado pela raiz, mas o bambu se curvaria e, passada a tempestade, voltaria a ficar de pé. Com isto exemplificava que a humildade era a mais importante virtude, a alma do seu povo. Até hoje, quando vejo um japonês se curvar para cumprimentar, me vêm à lembrança os Três bambus.
Meus contatos com a cultura japonesa haveriam ainda de continuar. Antigo morador de Rolândia, recordo que em 1978 tivemos a ventura da visita do príncipe Akihito, da princesa Mishiko, e do presidente Geisel que veio recepcioná-los. Na década seguinte, 1988, em nossa pequena cidade, o filho do imperador honrou-nos com sua visita e veio recepcioná-lo o presidente Sarney.
Torna-se, pois, a pequena e desconhecida Rolândia, solo sagrado pela sensibilidade e apego milenar à tradição japonesa. Agora, em junho, por ocasião da Imin 90, fomos outra vez honrosamente escolhidos para sediar os festejos, com a presença do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Três anos atrás tive a ventura de ir ao Oriente: Japão, China, Bali, Hong-Kong, Tailândia. O choque cultural foi tão grande que tudo me pareceu inverossímil. Eu viajara com o firme propósito de ir ao teatro japonês, que com o Bolshoi da Rússia é uma expressão máxima de arte em todo o mundo. Satisfiz a minha vontade e algo interessantíssimo me aconteceu.
No teatro éramos uns 800 espectadores. Começa o espetáculo. Vejo entrar pela passarela lateral um guerreiro shogun devidamente paramentado, secundado por uma gueisha em grande estilo, além de um séquito de outras dez. Após as apresentações, todos desaparecem.
Retorna então uma gueisha. Para minha surpresa, aponta para mim e me chama. Levanto-me e ela me toma pela mão e me leva para trás das cortinas. Lá as outras me colocam um paramento completo de shogun e me pedem para sentar no chão, defronte a uma pequena mesa entre o shogun e a gueisha principal.
De repente abrem-se as cortinas, e lá estava eu, o mais novo shogun, protagonizando um momento inesquecível de minha vida. Aliás, um longo momento pois fiquei no palco durante toda a apresentação - uma hora e vinte minutos - que durou para mim uma eternidade encantada. Além de assistir de perto a dança das gueishas, tive a ventura de participar da espiritualizada e quase etérea cerimônia do chá.
Portanto, como eu, Rolândia tem ligações com o Japão, sim. Queiram nossos irmãos paulistas compreender que não foram passados para trás. Modestamente, humildemente, nossa cidadezinha do Paraná, quase desconhecida, é solo sagrado onde pisaram os imperadores japoneses.
- ANDRÉ CARLOS DE ARAÚJO MOREIRA é odontólogo e agropecuarista em Rolândia


