Os antropólogos são uma comunidade perigosa. Que me perdoe nossa querida primeira-dama, Dona Ruth Cardoso, que é um doce de figura... mas antropóloga! É que esses cientistas sociais quando se referem, por exemplo, à cultura, englobam nesse conceito uma pletora de comportamentos que pode incluir a maneira de andar nus, como os índios brasileiros, e os cabelos arrepiados e coloridos dos ‘‘punks’’ ingleses. Daí que se debruçam nos tempos históricos a estudar culturas que decaíram, buscam rastros culturais nas cavernas e nas fossas atlânticas. E as culturas podem ser florescentes, decadentes, periféricas. No entanto, não me perturbo em adentrar essa área e tentar traçar um esboço que seja daquilo que entendo por culturas próximas. Permitam-me a ousadia.
A federação brasileira é composta de 26 estados. Vou me apegar a apenas um deles para falar deste tema. É o Espírito Santo. Ali, até o final da década de 50, existia uma região que se chamava ‘‘Área destinada à Colonização Italiana’’. Sucede que, ainda no tempo do Império firmou-se um tratado entre a Itália e o Brasil, destinando-se áreas específicas do Estado para ali se instalarem colonos italianos. O ministro do Interior do Império que firmou o acordo chamava-se Alfredo Chaves, nome de um município ao sul daquele Estado.
E a área, ao norte, com o nome aqui referido, transformou-se em outro município, com o sugestivo nome de Boa Esperança. Vizinho, aliás, de Nova Venécia.
Finda a escravatura em nosso País, em maio de 1888, houve a necessidade de substituir a mão-de-obra escrava em prazo muito curto, até porque o senhor café já começava a dominar a economia do País naquele final de século, o que fez até a metade do século seguinte, este nosso expirante século XX. Está no café o substrato da riqueza de São Paulo, o mais importante Estado da federação, com sua capital, de mesmo nome, que é, sem favor algum, a mais poderosa cidade do universo latino-americano.
Eu escrevi latino? Pois é, é a proximidade com a cultura italiana. E mais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul são núcleos imensos e de suma importância para a economia brasileira, ali onde a colonização alemã plantou, também, suas raízes. É onde vamos encontrar sobrenomes italianos difundidos pelo País, nomes de cidade e de locais que remontam à península itálica, com a observação de que não existe um local de atividade turística que não tenha o seu ‘‘belvedere’’.
Mas o tema, alguém poderia me fazer lembrar, é a cultura italiana no mundo. Não, não fugi ao tema, apenas procurei mostrar de que maneira se montou, em meu País, o espaço amplo, generoso, para que a cultura italiana fosse cultuada e venerada, copiada e, por isso mesmo, de influência maciça em nossa intelectualidade.
Talvez se estivesse exigindo que, ao tocar no assunto – cultura italiana – se fizesse referência obrigatória e, claro, mais que elogiosa, a Dante e Petrarca, Rafael, Botticeli e Da Vinci, a Vivaldi e Giuseppe Verdi, Ítalo Calvino, Umberto Eco e Primo Levi, de toda a Galeria dei Uffizzi, em Florença, de Florença mesma e de Veneza, da Roma de Fellini, Ana Magnani e Mastroiani, do time Internazionale e, com ele, do tricampeonato mundial, de Gramsci e de Togliatti, de Garibaldi, herói no Brasil, herói na Itália.
O espaço não me vai permitir sequer debruçar sobre cada um desses poucos nomes, para falar de suas excelências e de sua contribuição a isto de que hoje nos valemos e que se chama a cultura da humanidade. Mas é que esta referência aligeirada foi antecedida pela moldura que exibimos de uma região a muitos mil quilômetros daqui, o Brasil, onde essa cultura segue florescendo e ajudando o homem a entender o homem e, por isso mesmo, a amá-lo.
Não podem, pois, nos acusar de indiferença ou neutralidade. Isto é um pecado mortal. Condena o homem indiferente ou neutro ao inferno. Ao inferno dantesco. Isto mesmo. Porque Virgílio, quando acompanhou o Grande Bardo ao inferno e ali encontrou o grupo condenado por sua neutralidade, ensinou: ‘‘Non regionam di lor, ma guarda e passa.’’ É uma grande lição.
- RUBENS BUENO é deputado federal pelo PPS-PR

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