A cultura fragmentada da pós-graduação
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de dezembro de 1996
Alexandre do Espírito Santo 
Os cursos de pós-graduação em nossas instituições de ensino superior têm tido um crescimento quase geométrico nesta última década (1986-1995). Não fossem suas características comuns de baixa sociabilidade e baixa solidariedade entre os docentes, seria inapropriado atribuir-lhes uma cultura definida.
Porém, se aceitarmos como definição que cultura é o resultado de como as pessoas de uma mesma empresa se interrelacionam, então os professores de PG em cada instituição pertencem a uma cultura. Sabidamente, o relacionamento entre eles é de baixa sociabilidade. Não se relacionam naturalmente (de fato, evitam o relacionamento natural), não compartilham idéias, atitudes, interesses e valores, senão para se desentenderem, quando as reuniões burocráticas, porventura, exijam discussões de qualquer assunto acadêmico.
Se tais professores não se relacionam socialmente (o lado emocional e humano), muito menos se relacionam solidariamente (o lado mental e racional). Relacionamento solidário requer tarefas comuns, claramente identificadas a todos, atualização coletiva das tarefas, interesses mútuos e objetivos compartilhados. Os poucos professores de PG que poderiam ter esses comportamentos não têm como praticá-los. Falta foco estratégico, liderança e gerência em nossas estruturas de PG. Comumente, os seus titulares têm o mesmo baixo nível de cometimento pragmático dos demais professores. Além disso, em nossa sociedade de guerra não se tem solidariedade nem com vizinhos nem com irmãos, muito menos com colegas de trabalho ocasional.
Sem alguma sociabilidade e alguma solidariedade, uma cultura é fragmentada. Nela, os membros exibem baixo interesse em pertencer. Cada professor trabalha para si mesmo. Se perguntando em que universidade, departamento ou curso em que leciona, ele provavelmente se identificará como um profissional, com referências externas ao contexto. Essa falta de interrelacionalidade se estende ao trabalho. Este é feito em sua casa ou em seu escritório particular. Comparece na instituição apenas para dar aulas.
O professor de uma cultura fragmentada costuma ser caixa preta: conversa ou dá informações apenas quando solicitado diretamente. E, quando o faz, toma o máximo cuidado para não revelar suas convicções e seus conteúdos. Não é incomum que seus baixos níveis de sociabilidade os levem a sutilmente sabotar méritos de colegas, através de artimanhas administrativas, fofocas de corredor ou críticas abertas aos coletivamente tidos como mais antipáticos.
Como consequência, professores de uma cultura fragmentada frequentemente têm um segundo trabalho fora da instituição. Consideram-se membros de um grupo externo, sentindo pouca afinidade particular pelos alunos e pelo curso. Acreditam que seus trabalhos fora da instituição os interpretam melhor como profissionais que os trabalhos dentro dela. Sentem-se transitórios e os objetivos e estratégias do curso em que lecionam não têm diretas ligações com suas futuras buscas e expectativas.
Todavia, o mais deletério da cultura fragmentada de nossa pós-graduação é que ela é vantajosa aos professores mais qualificados. A estrutura matricial dos nossos PG (quase ditada pela CAPES) exige apenas aulas e produções deles, o que não implica em sociabilidade e solidariedade com colegas ou alunos. Para que outros incentivos? Já estão motivados. É o triunfo do status quo! Os incentivos da instituição, tais como TIDE e bolsas de pesquisa, são destinados principalmente aos neófitos. Porém, com eles a pós-graduação se desenvolve somente através de um pernicioso incesto institucional, a longuíssimo prazo, quando os qualificados estarão mortos ou aposentados, sem substitutos preparados por eles. Uma forte característica da estrutura matricial é não oferecer carreira.
Pior ainda, a nossa pós-graduação de cultura fragmentada precisa existir, é necessário que exista, pois somente ela oferece as liberdades que os professores qualificados exigem e que os neófitos começam cedo a apreciar. E, sem tais liberdades e amaciamentos, não há pós-graduação, ainda que seja apenas faca sem lâmina, faltando cabo.
- ALEXANDRE DO ESPÍRITO SANTO é Ph.D. University of Wisconsin, Madison, WI- USA e Universidade Estadual de Londrina.


