Eu ainda era menino, quando, pela primeira vez, alguém me definiu a diferença entre o pessimista e o otimista. Tomando como referência uma garrafa de vinho consumida pela metade, essa pessoa me informou que o otimista fica feliz de ver o quanto de vinho ainda tem para beber - e o pessimista se entristece pelo quanto já foi tomado.
Em recente artigo veiculado pela ''Folha de S. Paulo'', o empresário Antônio Ermírio de Morais comentava a mania do brasileiro de salientar as coisas negativas do seu país, enquanto os americanos fazem exatamente o contrário.
No recente episódio dos atentados terroristas contra os EUA, intuiu-se que a imprensa norte-americana - antes mesmo de receber do seu governo sinais nesse sentido - autocensurou-se, omitindo informações que poderiam afetar a auto-estima do seu povo. Em idêntica situação, como teriam reagido os nossos meios de comunicação? Talvez, de olho nos índices de audiência, tivessem feito o contrário, sem se importar com a saúde mental da população brasileira.
Não sou sociólogo, como o nosso presidente, que já chamou de fracassomaníacos alguns adversários, mas bem que gostaria de entender as razões que levam um povo a preferir salientar as suas frustrações ao invés de exaltar as suas glórias. Complexo de inferioridade?
No marco das comemorações da Semana da Pátria, Luiz Marins, renomado conferencista e consultor de empresas, escreveu sobre o vício do brasileiro de autoflagelar-se, transmitindo a falsa imagem de pertencer a uma sociedade infeliz, quando somos exatamente o contrário.
Até quando, pergunta Marins, continuaremos a dizer ''nem parece o Brasil'', quando algo bem-feito, bonito, correto, limpo, acontece no País, e ''isto é Brasil'', quando algo sujo, desonesto, malfeito, horrível, acontece em nosso território?
Por que, continua Marins, não falamos do Projeto Genoma, onde o Brasil figura como o único representante do Hemisfério Sul, ou não comentamos o programa de combate à Aids, tido como o de maior sucesso mundial entre iniciativas similares? Por que não dizer que 42% do PIB da América Latina é do Brasil e que são brasileiros 40% dos internautas dessa região? Que somos o quinto país em número de telefones fixos e o segundo maior mercado mundial para telefones celulares, jatos executivos, helicópteros e biscoitos? Que o Brasil é o 5º país do mundo em poder de compra, o 3º mercado para refrigerantes e o 4º para geladeiras e lavadoras de roupa? Por que não falar que 97,3% das crianças brasileiras de 7 a 14 anos estão na escola, que temos 15 fábricas de veículos e outras quatro se instalando? Que temos o mais moderno sistema bancário e de apuração de eleições do mundo? Que somos o 5º mercado fonográfico e o país em desenvolvimento com o maior número de empresas com ISO 9.000? Por que não falar do sucesso da soja brasileira, que já supera a produtividade da soja americana?
Por que falar da violência no Brasil e esquecer-se da violência muito maior do Oriente Médio, do IRA, do ETA, dos Bálcãs? Por que criticar a pequena queda da nossa produção industrial, sem se referir aos 16% de queda em Cingapura, 12% em Taiwan, 10% na Malásia e 8% no Japão?
Afinal, por que falar com prazer da falta de energia, do apagão e anunciar dados positivos com justificativas catastrofistas, como fez recentemente um grande jornal ao comentar que o menor índice de desemprego do País, desde 1997, deveria ser creditado ao desalento e à descrença do trabalhador, que desistiu de procurar emprego?
O que é preciso fazer para que o brasileiro deixe de desdenhar a sua própria terra, eleve sua auto-estima e abandone o complexo de vira-lata? Falta um projeto de país, sonho nunca perseguido pela nossa classe política ou nos falta patriotismo e respeito pelo Brasil? Talvez seja porque tratamos mal a nós mesmos que não crescemos, permanecendo eternamente o país do futuro. Acorda Brasil, pois o otimismo também contagia. Quem não respeita e ama a terra que o viu nascer, vai gostar de quê?
- AMÉLIO DALL'AGNOL é engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa em Londrina

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