Se Ratinho se colocasse no papel de Jô Soares e transformasse seu programa em um talk-show, com certeza não faria sucesso. A recíproca é verdadeira. Se Jô transformasse seu programa em desfile de baixarias, brigas arrumadas de casais e quetais, seria um fracasso. Carla Perez não teria feito sucesso, se não tivesse encontrado jeito de transformar a região glútea num tchan atrativo. O mesmo se pode dizer de Tiazinha. Fosse uma parenta ranzinza, vestida de freira, sem a exuberante fotografia de uma estupenda anatomia, com óculos de fundo de garrafa, não entraria na mente da galera que sempre agasalha, em sonhos, uma freudiana tia.
A receita de parte do sucesso das celebridades deve-se à sua exposição pela mídia. Quanto maior a exposição, mais possibilidade de sucesso. Os dotes artísticos, as características e qualidades da pessoa influem para a popularização do perfil. Mas o que é pouco analisado é a cultura do contraponto como fator de sucesso. No Brasil, o contraponto, a oposição, a coisa exagerada, o fato surpreendente ganham mais destaque que as coisas normais. É claro que fatos inusitados chamam mais atenção. É uma das leis do jornalismo. Entre nós, porém, esse aspecto ganha dimensões monumentais. E a razão pode estar na cultura do deboche, da improvisação, do gosto pelo extravagante, que baliza o comportamento do brasileiro.
Na política, o fenômeno também é visível. Itamar Franco não teria grande espaço na mídia, se não fizesse tanto jogo de cena. Representa o contraponto. Parece querer dizer todo tempo: se todos pensam da mesma forma, eu sou contra. Vocês acham que o caminho é este? Eu não acho. E assim ele vai abrindo espaços nos meios de comunicação, usando a logotipia anatômico-fisiológica: o topete, a voz rouca, os olhos esbugalhados. Usa imagens fortes, como Tiradentes, na tática de envolver os mineiros com o cobertor nacionalista. Desperta muitos rancores e poucos apoios e é o que ele quer. Ser notícia. Ser estrela. Ser olimpiano, um deus da cultura de massa. Está conseguindo. A explicação: Itamar é o contraponto à ordem política. Nisso, ganhou até do PT.
A cultura do contraponto provoca consequências nefastas para o estado civilizatório do país. Primeiro, porque tende a nivelar as coisas por baixo. A linha de prioridades cede lugar a uma ordem perfunctória. A cabeça perde lugar para o coração. A emoção, a paixão, ganham da razão. E a energização excessiva do debate político acaba esmaecendo o sentido de seriedade que deve guiar as decisões. No caso das celebridades televisivas e seus programas, o contraponto excede nas formas em detrimento do conteúdo. O grotesco se sobrepõe. Figuras exóticas tomam o lugar de perfis normais. O desenho escatológico afasta os traços harmônicos que procuram retratar a normalidade. Brigas do cotidiano entre casais, anomalias e caras elefânticas, adereços inusitados, coreografias estapafúrdias, disparates em escala, dão conformação a uma cosmética de horrores.
Para compensar o efeito tétrico de figuras canhestras, exibe-se nesse palco de pobres encenações um outro lado, suave, às vezes risonho, muitas vezes sensual, quase sempre lúdico. Pois quem não há de rir ou fixar os olhos nas partes redondas e ensaboadas da moça da banheira do Gugu e nas tetas silicônicas das beldades carnavalescas, cujo freudiano desejo é o de mostrar para o mundo sua grande verdade? Junte-se sexo e sensualidade, adicione-se uma pitada de humor, encaixem-se perfis bonitos, criem-se histórias fantásticas, mostrem-se, às vezes, o irmãozinho, o pai e a mãe da celebridade. O resultado é um prato farto. Um prato densamente calórico para se lambuzar e gerar catarse em corações aflitos e bolsas lacrimais oceânicas.
É um espetáculo para alívio de vidas que se atormentam na crise. É a mágica arquitetura de uma mídia que usa o contraponto para aumentar a audiência. As partes femininas traseiras ganham volume. O grotesco vira peça comum. Topetes e histrionismo sobem de pa(i)tamar. E assim caminham as nossas ilusões.

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