A culpa é do Pato Donald
Maria Lucia Victor Barbosa
Em 28 de junho, os leitores da Folha de Londrina/Folha do Paraná, puderam ler uma curiosa entrevista de página inteira com um senhor chamado James Petras. Tendo vindo ao Paraná e proferido palestra na Universidade Estadual de Londrina, ele foi apresentado pelo jornal como um grande intelectual norte-americano, autor de inúmeros livros sobre América Latina, colaborador em jornais dos Estados Unidos e da Europa, professor da Universidade Estadual de Nova York.
Até aí, nada de mais. Na terra do professor Petras, onde o mérito é levado em conta e boas condições de ensino são oferecidas, o meio acadêmico propicia em muito maior quantidade do que a existente no Brasil, oportunidades de progresso científico e financeiro, reconhecimento social, acesso a publicações, congressos etc. Portanto, Mr. Petras seria apenas mais um bem-sucedido homem do saber, que se expande de seu país para o mundo, se não fosse um exótico detalhe ressaltado na entrevista: ele é um autêntico marxista-leninista que, nascido nos Estados Unidos, critica sem meias palavras a nação que lhe ensejou a oportunidade e a liberdade de tornar-se um comunista para ninguém botar defeito.
Acostumado ao sistema liberal que lhe permite expressar-se à vontade, Mr. Petras não se vexou em desancar também o presidente Fernando Henrique Cardoso, considerado por ele como entreguista, corrupto, autoritário. Estas acusações soaram extremamente levianas porquanto serem sem provas, e é de se duvidar que um estrangeiro nos Estados Unidos possa dar impunemente entrevistas em jornais incriminando o presidente daquele país. Afinal, liberalismo e democracia incluem também o acatamento das leis.
De todo modo, seria aconselhável que Mr. Petras tentasse minar o ‘‘centro imperialista’’ em que nasceu de lá de dentro mesmo. Experimente ele pregar em sua própria pátria que tanto respeita a lei, o desrespeito às normas constitucionais. Incite, no país da prosperidade e da propriedade privada, a subversão da ordem. Levante o estandarte da luta de classes na terra onde a igualdade de oportunidades é a maior do mundo. Destrua os valores dos quais os norte-americanos se orgulham: competência, confiança recíproca, trabalho metódico e disciplinado, tenacidade. Acabe com as instituições conquistadas ao longo da história, que propiciam àquele povo a garantia de seus direitos e a consciência dos seus deveres. Mas faça isso por lá, e não em seu turismo ideológico pelo Terceiro Mundo, sustentado com dólares e incrementado com a inevitável dose de lazer que ocorre em simpósios onde se discute a sorte dos oprimidos do Planeta.
Outro caminho que poderia tomar o renomado Mr. Petras, é o inverso. Deixe ele os confortos da maldita sociedade de consumo. Abandone Nova York para viver num país abençoado pelo socialismo e situado bem longe do Pato Donald, este monstro diabólico que infelicita o mundo. Se a culpa de tudo que existe é deste animal bicudo, corra dele, Mr. Petras. Não lhe faltarão alguns locais, poucos, é verdade, que lhe propiciarão as delícias do socialismo. Talvez, a Coréia do Norte ou Cuba. A China não é aconselhável, pois já está corrompida pelo Pato Donald, este grande culpado por todos os flagelos mundiais.
Mas quem sabe deveria Mr. Petras se mudar para algum país da África, onde tinturas de socialismo não impedem que o povo morra de fome? Nestes tristes lugares de infortúnio, ele poderia ser um baluarte comunista a levar avante seus anseios missionaristas. E que tal tentar reconstruir o Muro de Berlim na Etiópia? Pelo menos seria mais autêntico do ponto de vista da ideologia do que o blá-blá-blá revolucionário.
Evidentemente, tais escolhas não excluem a América Latina. Entre os remanescentes do Sendero Luminoso, ou na Loc, franquia deste movimento no Brasil; junto ao revolucionário MST, ou mesmo no Grupo Zapatista e congêneres latino-americanos, Mr. Petras poderia colaborar como intelectual orgânico de Primeiro Mundo. Seria uma grande contribuição à causa da derrota do imperialismo. Ao mesmo tempo, o professor marxista seria de grande auxílio no esforço de anular o processo da globalização, em que pese ser isso algo semelhante à revogação da lei da gravidade. Sim, grandiosos seriam os préstimos de Mr. Petras. Pena que ele prefira a realidade virtual da esquerda acadêmica, último refúgio da utopia marxista, cômodo, porém, estéril.
De minha parte, também fiz um estudo que foi publicado com o título ‘‘América Latina - Em busca do paraíso perdido’’. No livro me propus a conhecer o que nós latino-americanos somos a partir do que fomos. Para tanto, lancei-me numa ‘‘viagem’’ de investigação para re-‘‘descobrir a América’’. Assim, investiguei o poder do Estado e da Igreja para desvendar nossa essência cultural, ou seja, nossos valores, comportamentos, atitudes e visão de mundo. O livro foi lido por outro americano, o professor Lawrence E. Harrison, da Universidade de Harvard, também especialista em América Latina, o qual me convidou para participar de um congresso internacional que se realizou na Costa Rica. Lá estavam presentes importantes intelectuais latino-americanos, norte-americanos e europeus.
Entre eles encontrava-se Carlos Alberto Montaner, um dos autores do ‘‘Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano’’, em cujo prefácio, de autoria de Mario Vargas Llosa, pode-se ler algo bem pertinente em relação às reuniões que contam com marxistas do tipo Mr. Petras: ‘‘O paradoxo que ocorre na atualidade da América Latina é que o governo de suas sociedades começa a mudar, suas economias reformam-se e suas instituições civis nascem ou renascem, enquanto sua vida intelectual segue em grande parte estancada, cega e surda diante das grandes mudanças que experimentou a história do mundo, imutável em sua rotina, seus mitos e suas convenções’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

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